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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

22 de abril de 1500 – foi ai que começou tudo para o Brasil.

                                                     
(Pedro Alvarez Cabral)
 
Realmente, Cabral não imaginaria naquele dia, que tanta coisa resultasse de sua viagem. Estavam ali na Bahia doze embarcações, das treze originais e a marujada se desdobrava nas fainas de bordo, feitas com cautela, pelo total desconhecimento do local e de suas águas.

Para ele tudo decorrera de uma deliberação do Rei D. Manuel I, que o mandara liderar aquela frota, não apenas por ser filho de Fernão Cabral, alcaide-mor de Belmonte, mas em especial pelos laços de amizade e confiança mútua, que os ligavam ao monarca.
 
(Rei D. Manuel I)

Ainda estavam frescas na sua memória a missa, realizada no Mosteiro de Belém, presidida pelo bispo de Ceuta, D. Diogo de Ortiz, em pessoa, onde este benzeu uma bandeira com as armas do Reino e a entregou em suas mãos, despedindo-se o rei do fidalgo e dos restantes capitães. Estavam então todos os presentes de luto, pois se muitos partiam, bem poucos retornavam à pátria.

A 9 de Março de 1500 zarpou a grande frota do Restelo, com o objetivo formal de novamente tentar atar relações comerciais com os portos índicos de Calecute, Cananor e Sofala, uma vez que Vasco da Gama havia sido na primeira tentativa ridicularizado pelos governantes locais dadas as péssimas condições, em que os portugueses se encontravam no seu desembarque.

Pelo dia 14 do mesmo mês já se encontrava a frota nas Canárias e no dia 22 chegava a Cabo Verde. No dia seguinte desapareceu misteriosamente o navio de Vasco de Ataíde (o 13.°).
 
                                               
(Esquadra portuguesa de Pedro Álvares Cabral)

No dia 22 de Abril, de modo, que não se sabe com certeza, se foi acidental ou já premeditado, avistou-se “terra chã, com grandes arvoredos”. Ao grande monte, Cabral batizou de Monte Pascoal e à terra deu o nome de Ilha de Vera Cruz, hoje no Estado brasileiro da Bahia.

Aproveitando os ventos alísios, a esquadra bordejou a costa baiana em direção ao norte à procura de uma enseada, achada afinal pouco antes do pôr-do-sol do dia 24 de abril, em local que viria a ser chamado Baía Cabrália.
 
 

                                                      
(desembarque de Cabral no Brasil - tela de Oscar Pereira da Silva)


 
 
Ali permaneceram até 02 de maio, quando rumaram para as Índias, cumprindo finalmente seu objetivo formal de viagem, deixando dois degredados e dois grumetes que desertaram.
 
                                                
(Primeira Missa do Brasil - tela de Victor Meirelles)

Mal sabia o almirante, que embora comercialmente a expedição marítima tenha sido um sucesso, a sua viagem, no aspecto diplomático, iria se mostrar um real fracasso, sendo que Portugal ainda demoraria mais algumas décadas até conseguir uma relação comercial com aqueles povos indianos.

Tais, em poucas linhas, a grande viagem para a terra ignota, que parecia ser uma ilha, mas que era na realidade parte de um imenso continente. Dela decorreram 514 anos até hoje. E tudo aquilo que Cabral não pudera imaginar veio aqui a acontecer, sendo nós hoje o resultado de inumeráveis lutas, com grandes vitórias e poucas derrotas, todas esquecidas em livros empoeirados. Mas, se muitos não souberam, ou não quiseram saber, eu as guardei em suas linhas gerais e ora aqui, ora ali, as relembro. A começar pela imagem aqui reproduzida, que é a mesma das notas de um mil cruzeiros, que circularam nos anos sessenta do século passado e que eram impressas na América do Norte na empresa American Bank Note Company. Havendo ainda outras, estando todas no domínio público.

Inseri este texto aqui, pois a chegada dos navegantes lusos marcou o início da civilização para a terra que nos abriga com tanta generosidade, conforme destaquei na imagem inicial.


 
Fonte:
Wikipédia, a enciclopédia livre
http://pt.wikipedia.org/wiki/Descoberta_do_Brasil
Acesso em: 22/04/2009.
 
COUTO, José Ferrer de. Historia de la Marina Real Española. Madrid: 1849 (litogravura da esquadra cabralina).

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

A Batalha Naval do Riachuelo.

Breve introdução:



(imagem de satélite atual do local da batalha do Riachuelo)
 
Casualmente obtive este texto na WEB, aonde ele foi apresentado da seguinte forma:
 
"Foi no distante junho de 1918, mais de cinqüenta anos da monumental batalha, que o almanaque "Eu sei tudo", numa sugestiva seção intitulada "PAGINAS ESQUECIDAS", brindou os seus inúmeros leitores com uma matéria muito bonita e comovente, sob o titulo "COMBATE DO RIACHUELO", do Dr. Pires de Almeida. Hoje, após mais de 80 anos da publicação e 130 anos da batalha, o Almanaque Virtual procura preservar esse maravilhoso feito desses bravos soldados, reeditando novamente essa matéria, na esperança de não ter sido em vão os esforços dos editores do almanaque "Eu sei tudo", não tornando essa página da nossa história, em uma das PAGINAS ESQUECIDAS".

Ao final da matéria estão os créditos correspondentes. E a seguir a matéria propriamente dita:


"COMBATE DO RIACHUELO"



(Batalha Naval do Riachuelo - tela de Eduardo de Martino)
                                                                         
                                                     

"Em fins de abril, de 1865, duas divisões da esquadra brasileira subiram o rio Paraná, indo fundear em Bela Vista. Os paraguaios, tendo invadido o território correntino (Corrientes) com poderosa força, ao mando do general Robles, agora reforçados por mais 3.000 homens, apoderam-se da cidade, depois de haverem tomado de assalto dois vapores argentinos, e juntam-se ás tropas ali existentes, convertendo a indefesa cidade em poderosa praça de guerra, com um efetivo de 27.000 homens e 60 bocas de fogo.
 
Simultaneamente, outro exercito paraguaio ameaça invadir as fronteiras brasileiras pela lado de Itapua, ao mando do tenente coronel Estigarribia.
 
Sem que encontrassem embaraços á sua passagem, os paraguaios, com forças sempre numericamente superiores, dividem-se e subdividem-se, descendo a melhor parte até Riachuelo, em cujas barrancas se fortificam.; não obstante porém esse aparato todo, inesperadamente contra-marcham, obrigando Paunero, que ia ao seu encontro, a reembarcar suas tropas, vindo abarracar-se em Rincon del Soto.
 
Aquele simulacro de retirada não passara despercebido ao valente cabo de guerra argentino, que, sem ter receio do imprevisto, de plano com com o chefe Barroso, que o auxilia na temerária expedição, embarca novamente suas forças e, surgindo na capital correntina a 25 de Maio (quinta feira), ataca-a e retoma-a, estando a cidade defendida por 2.000 homens, ao mando de Martinez.
 
Os aliados tiveram fora de combate, entre mortos e feridos, 200 argentinos e 21 brasileiros; o inimigo 452 mortos fora 66 feridos e 86 prisioneiros; e , além de armamento e munições em considerável quantidade, tomamos-lhe mais três bocas de fogo, duas caixas de guerra e uma bandeira. Obtida esta vitória, Paunero, certo de que Robles, vendo assim surpreendida sua  linha de retirada, o atacaria com 25.000 homens sob seu comando, embarca as forças argentinas e brasileiras e desce, indo acampar no Rincon.

E com aquele predisposto, Lopez embarca precipitadamente no Taquari, a 8 de junho de 1865, uma quinta feira, com direção a Humaitá, e assiste em pessoa aos preparativos para a planejada expedição, marcando o dia 11, domingo, irrevogavelmente para o ataque e abordagem á esquadra, que ele supunha desprevenida e desguarnecida.

Aparentemente calmo, Lopez traia-se a cada instante, desenvolvendo frenética atividade para esconder os revezes que acabava de sofrer, e agora, sugestionado pelo feroz Diaz, resolve o ousado plano de um formidável combate naval, de que lhe adviriam vantagens imaginarias sobre os exércitos aliados.

Para atenuar, perante os seus soldados, o desastre de Corrientes, responsabiliza pela derrota o chefe Martinez, que faz passar pelas armas, não obstante ter-se valentemente  batido. Apenas chegado ao forte de Humaitá, Solano Lopez, em veemente alocução, concita os oficiais e soldados do Sexto batalhão de infantaria naval, o mais valente dos seus batalhões, a se baterem sem tréguas; e á distribuição de sabres e machadinhas recomendou-lhes que lhe levassem prisioneiros vivos, ao que eles responderam que pouco lhes preocupavam prisioneiros, prometendo afirmativamente, que voltariam vitoriosos, rebocando os nossos vasos de guerra.

A despeito de tão eloqüente entusiasmo, Solano Lopez, como se não confiasse bastante no plano traçado pelo general Diaz, reforçou-o, mandando o coronel de artilharia Bruguez assestar uma bateria de 32 canhões, na margem direita da embocadura do Riachuelo; este, por iniciativa própria, estendeu no local denominado Barrancas, protegido por um montículo, poderoso contingente de infantaria, destinado não só a socorrer a abordagem sob o comando do coronel Aquino, mas ainda a auxiliar a artilharia com a sua fuzilaria.

Três mil homens ali estavam na tocaia. A margem direita da embocadura, de ponto em ponto, outros contingentes se abarracaram para fim idêntico.

A nossa força naval atingia, no local, a 2.287 combatentes, inclusive oficiais de mar e terra, sendo 1.113 de marinha e 1.174 do exercito, que se achavam a bordo para qualquer operação de desembarque, e 50 bocas de fogo; cumprindo assinalar que oficiais e praças de terra, segundo as comunicações do vários comandantes, muito concorreram para o resultados obtidos.

Formando ligeira curva, alerta se achavam os navios paraguaios: Tacuary, Igurey, Marquez de Olinda, Salto, Paraguary, Iporá, Jujuy e Iberá, na ordem em que os mencionamos. Essa esquadra partira de Humaitá á meia-noite, dando-se logo ao sair um desarranjo na maquina do Iberá, que alterou um tanto o plano de ataque.
    
Abaixo de Corrientes, cerca de duas léguas, ostentava-se a nossa esquadra, composta dos vapores de guerra: Belmonte, Mearim, Beberibe, Ipiranga, Amazonas, Jequitinhonha, Parnaíba, Iguatemi e Araguari, ancorados á margem direita do Paraná, entre as pontas do mesmo nome e de Santa Catarina.


(representação da nave Tacuary, capitânia paraguaia)

Importando executar á risca as ordens do ditador, a abordagem foi tentada logo ao dobrar a ilha Palomera. Aproaram os navios contra a corrente do Paraná, como para executá-la; o renhido canhoneio dos rodízios de popa dos vapores brasileiros, porém, fê-los recuar. Depois deste rechaço, a esquadra paraguaia, avançando, colocou-se em frente ás bocas do Riachuelo.

As 9 horas, distinguem-se nuvens de fumo anunciando a aproximação de navios inimigos. Do tope de vante de um dos nossos vasos de guerra ouvem-se vozes de Navio á proa! Em seguida de Esquadra inimiga á vista.

Imediatamente a Mearim, a cujo bordo se achava Barroso, iça o respectivo sinal. Rufam tambores e trilam os apitos no convés de todos os vapores de nossa divisão. Barroso desfralda sinais, que ordenam: Preparar para combate! E manda despertar os fogos abafados; Largam-se as amarras sobre as bóias; acham-se em bateria as peças e rodízios; os encarregados da munição descem pressurosos aos paióis e voltam trazendo balas e metralhas, que empilham aos lados das baterias. Atiradores guarnecem as gáveas.

A esquadra inimiga apontou, indo na frente Paraguary, seguido de Igurey e depois Iporá, Salto, Pirabebé, Jujuy, Márquez de Olinda e Tacuary. Neste embarcara, em Humaitá, o velho marinheiro Mezza, com a senha de abordar violentamente e, segundo as circunstancias, um ou mais navios, sem medir sacrifícios.

A nossa esquadra põe-se em movimento, iniciando a marcha a canhoneira Belmonte, cuja guarnição se mostra ansiosa. Seguem após Amazonas, para cujo bordo de transferira Barroso, e, na mesma linha, avançam, Beberibe, Mearim, Araguari e os demais.

Já no tope do navio capitania vê-se o sinal de O Brasil espera que cada um cumpra o seu dever e, em seguida, este outro Bater o inimigo que estiver mais próximo.

A nossa esquadra ia, de fato, ao encontro do inimigo. Jequitinhonha, ao passar em frente á embocadura do Riachuelo, encalha, dando se então fortíssimo tiroteio entre as forças do navio e as de Bruguez, ao alto do barranco.

Três navios paraguaios tentam abordá-la; a canhoneira, porém, cuja tripulação a custo consegue safá-la, prossegue, obrigada a uma luta desigual, em que a nossa maruja se vê constantemente a beira das baterias inimigas. Quadro indescritível oferece, então, esse vaso de guerra, com a sua proa, as amurada, as vergas e os mastros, os escaleres, tudo, enfim, reduzido a estilhaços, que concorrem para por fora de combate os nossos soldados e oficiais mais ousados.
    
Morre Lima Barroso e, junto dele, tem a mesma sorte o pratico André Motta; 17 inferiores tombam quase de assentada. Recebem ferimentos o chefe Gomensoro, Freitas, Lacerda e Castro Silva, firmes nos seus postos.

Desce agora o Parnaíba: outra abordagem pelos navios Salto, Paraguary e Tacuary. Tão certeiros são os disparos da Jequitinhonha sobre Paraguary, que este retrocede logo.

Os outros navios atacantes encostaram-se, porém, a bombordo e a estibordo da Jequitinhonha; Garcindo, no passadiço, concita a tripulação á resistência; Firmino Chaves, em brados de entusiasmo, Pedro Afonso Ferreira e Maia, á frente dos seus navais, relutam com denodo.

O Marques de Olinda, vem em socorro dos seus e despeja no convés da Parnaíba centenas de bravios guaranis, armados de sabres, machadinhas e revolveres. Eram os famigerados do Sexto de infantaria, que já se haviam triste e indignamente celebrado nas carniçarias de Mato Grosso.

Dá-se, então, combate, peito a peito, pulso a pulso, que remata em horrível carnificina. Greenhalgh consegue derrubar, a tiro, um oficial paraguaio, que o intima a arriar o pavilhão; mas, logo após, cai morto ás arguçantes cutiladas de sabre a duas mãos; Pedro Affonso e Maia, defendendo-se, caem mutilados; Marcilio Dias, batendo-se contra quatro, mata dois de seus adversários, morrendo em seguida aos golpes de afiadas machadinhas dos outros dois. Após uma hora de nutrida e porfiante contenda, o inimigo consegue Apossar-se do convés desde a popa ao mastro grande. Os oficiais, escudados pelas peças, fuzilam-no, ás incessantes investidas. Mearim e Belmonte, respectivamente sob os comandos de Eliziario Barbosa e Abreu, acodem oportunos.

Os abordantes abandonam os companheiros, que haviam galgado o convés da Parnaíba, e fogem aos primeiros tiros daqueles navios. A bordo da Parnaíba chegara-se a vacilar um instante, quase se perdendo a esperança de repelir o inimigo, que se multiplicava com os ininterruptos esforços; Garcindo, seu brioso comandante, á iminente ameaça daqueles reforços, chega mesmo a combinar com o imediato Felippe Rodrigues Chaves que, em ultimo caso e como medida extrema, lançariam fogo ao paiol, fazendo voar o navio em estilhaços, e, como visse repletas chalanas inimigas se aproximarem, transmitiu aquelas ordens ao oficial, escrivão Correa da Silva, que acendendo o charuto, se dispôs a obedecer no instante; a guarnição, entretanto, reanima-se e, investindo contra os paraguaios, que em vertiginoso delírio se batiam á louca, aos gritos de - mata! degola! , tapetam o convés com seus cadaveres, que rolam por dezenas. O Amazonas, que até então sustentara vivíssimo fogo contra as baterias de Bruguez, percebe, através da espessa fumaça, o que se passa a bordo da Parnaíba, e vem-lhe em socorro, no momento mesmo em que o Márquez de Olinda chegava para reforçar a abordagem: contra este investe o Amazonas, que o afunda a proadas. O Tacuary tenta escapar-se a idêntica manobra do Amazonas; este, porém, persegue-o, e mete-o a pique, igualmente ás bicadas de proa. Ipiranga, sob o comando de Alvaro de Carvalho e que, bem como aquele, respondia ao tiroteio da baterias de Bruguez, vem, por sua vez, em defesa do Parnaíba, e com certeiros disparos arromba logo o costado e as caldeira do Salto, cuja tripulação, em alarido, atira-se na água, á fuzilada dos nossos.

Segue-se agora o Ipiranga no encalço do Paraguary, crivando-o de metralha. A Beberibe, cujo comandante Bonifacio de Sant'Anna se mostrara de inaudita bravura, persegue os navios inimigos. O comandante da Iguatemi, ferido, é levado em braços para o camarote; o imediato Oliveira Pimentel, substituindo-o, é decapitado por uma bala; assume o comando o jovem Gomes dos Santos, que auxilia o tiroteio.
    
O Ipiranga, ao mando de Alvaro de Carvalho, faz submergir uma chata que, a distancia, dirige certeiros tiros aos costados dos navios: a tripulação, estilhaçada, trombulha, descendo na correnteza; no Araguary, Hoonholts bate-se com denodo; contra o navio de se comando voltam-se os que atacavam a Parnaíba, auxiliados agora pelo Tacuary, que recuara aos disparos dos rodízios do Ipiranga.
    
Os flancos dos navios brasileiros, despedaçados pelos canhonaços das chatas a lume d'agua, tornam iminente a submersão total da esquadra. Bombas metralhas esfuziam do alto dos barrancos: não é possível descrever o que se passa a bordo dos navios ao alcance das balas, que sibilam em chuveiros.

Entretanto, alguma coisa de providencial se passava, que cumpre não esquecer: quando o oficial-escrivão da Parnaíba, depois de haver tragado, para atiçá-lo, algumas fumaças do fatídico morrão que deveria comunicar o fogo ao paiol, pensa cumprir a sinistra ordem ouvem-se alvissareiros vivas que, irrompendo dos navios brasileiros em delírio, o detém estupefato. E  de pé, sobre a caixa das rodas, destaca-se afina, por entre densas nuvens de fumo, o vulto imponente de Barroso, que é o primeiro a bradar - Vitória!

E este triunfo naval, que tão diretamente influíra nos destinos de toda a campanha, mudou também, e inteiramente, a sorte dos adversários. Robles não mais prosseguiu na invasão de Entre Rios; Estigarribia, isolado nas margens do Uruguai, depões as armas; Lopez, recolhendo-se a temporária defensiva, volta-se contra os seus: Robles ao regressar é fuzilado por covarde.

As nossas perdas foram de 216 combatentes entre mortos e feridos, assim descriminados por navios:


 
NaviosMortosFeridos
Amazonas1313
Belmonte923
Iguatemi16
Jequitinhonha833
Parnaíba3329
Beberibe519
Araguari25
Ipiranga16
Mearim28
   
Total74142
Total 216

O inimigo teve fora de combate, a bordo, entre mortos, feridos, afogados, comprimidos pelos costados dos navios e prisioneiros, 1.500 praças, aproximadamente; em terra, Bruguez perdeu 1.750, o tudo perfaz 3.250; mais elevada foi, entretanto, a estimativa de inteligentes oficiais prisioneiros. E a esquadra avança, avança sempre, em demanda de novas e estrondosas vitórias".


fonte:

PIRES DE ALMEIDA: Páginas esquecidas, Combate do Riachuelo. Almanaque "Eu sei tudo", junho de 1918. Disponível em Almanaque Virtual - Bene Trovato, ano XI, http://www.almanaque.cnt.br/riachuelo.htm . Acesso em: 02/02/2015.






(Contra-almirante Francisco Manuel Barroso da Silva)

                    
                       
                            Últimas ilações:


 O texto acima foi fielmente transcrito e tendo sido escrito há quase cem anos se ressentiu é claro de algumas imperfeições, decorrentes da carência de dados e do enfoque que então se dava ao sangrento conflito. Hoje, a visão daquilo tudo melhorou muito, novos dados foram tornados públicos e é possível até pela natural objetividade oriunda do decurso do tempo discorrer-se melhor sobre o evento. Também na publicação obtida não constavam estas imagens, que eu inseri nela, para dar maior colorido a tudo.

Mas, certamente a batalha do Riachuelo salvou Buenos Aires e Montevidéu de futuros ataques a elas, consolidou o domínio das águas platinas pela Marinha Imperial, assegurou o total bloqueio marítimo e fluvial do Paraguai e foi um importante laurel aquela, que até hoje é comemorado com fervor na Marinha do Brasil. Tendo ainda antecedido a futura derrota paraguaia em Uruguaiana, que obrigou a espontânea evacuação destes de Corrientes e Entre Rios, libertando a Argentina da injusta opressão lopista. Busquei na postagem mostrar as duas naves insígnias opostas, a Amazonas (no centro da tela de Eduardo de Martino) e o Tacuary, bem como a figura do almirante Barroso, dedicado chefe naval brasileiro e real autor da derrota naval guarani.
 
 
 
 

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Piratas com fome

Corsários que faziam escala no Brasil em busca de comida adoravam as receitas locais

Sheila Moura Hue


Eles saíam de casa, do velho continente europeu, rumo aos desconhecidos mares do sul, com um apetite voraz por aventura e seus navios abarrotados de comida e água, que teoricamente deveriam durar até a próxima parada. Mas as coisas nem sempre transcorriam como o esperado. Tempestades, calmarias, incêndios e encontros nada amistosos com inimigos destruíam parte do estoque. O calor infernal dos trópicos se encarregava de fazer apodrecer o resto, o que provocava uma horripilante proliferação de vermes e doenças. Os corsários e piratas ingleses chegavam ao Brasil quase sempre famintos, depauperados, doentes e desesperados por água fresca e comida.
Muitas vezes o objetivo das frotas não era o Brasil, e sim destinos mais distantes no Oceano Pacífico: as costas da América espanhola com suas ricas embarcações abarrotadas de ouro e prata; e as rotas do oriente, onde também havia galeões carregados de tesouros. O Brasil era uma espécie de escala, quase obrigatória, antes da difícil e perigosa travessia do Estreito de Magalhães.
A tarefa de achar um bom porto para ancorar e abastecer os navios com água e mantimentos não era das mais fáceis. Alguns felizardos encontravam belos rios de água potável e eram bem recebidos por índios ou colonos amistosos, que lhes forneciam frutas, raízes comestíveis e animais. Outros eram rapidamente expulsos da terra por tribos de canibais, precisando ir de ilha em ilha em busca de alimentos.
Tudo se tornou mais difícil depois de 1580. Naquele ano, Portugal foi anexado à coroa espanhola, e Felipe II, rei da Espanha, que estava em guerra com a Inglaterra, passou a ser também soberano do Brasil. A situação piorou ainda mais em 1588 quando a junta governativa composta por Antônio Barreiros, Cristóvão de Barros e Antônio Coelho de Aguiar criou medidas para defender o país contra o ataque de corsários, proibindo navios estrangeiros de freqüentarem as costas brasileiras, com exceção daqueles que apresentassem uma Provisão Real (documento fornecido pela coroa portuguesa). Suas ordens eram muito claras: estava proibido comercializar com qualquer embarcação inglesa em território brasileiro. Mas nem todos os ingleses estavam a par dessas ordens e, quase sempre, movidos pelo desespero da fome e da doença, tentavam a sorte em nossos portos.
Quando ainda contavam com homens em condições de lutar, alguns navegadores atacavam e saqueavam vilas no litoral brasileiro, onde se fartavam com frutas nativas, peixes, carnes, e com derivados da mandioca, como a farinha e os beijus (massa feita de farinha de tapioca). Os alimentos eram disputados avidamente, como aconteceu com a tripulação do corsário Thomas Cavendish (1560-1592), em 1592, que pretendia, pela segunda vez, dar a volta ao mundo. Na Ilha Grande, no Rio de Janeiro, os homens de Cavendish, desesperados de fome, saquearam as casas da região, angariando batatas, bananas, raízes, além de porcos e galinhas. “Naquele lugar, não consegui comida nem dinheiro, de modo que, levado pela pura fome, me meti na floresta para tentar caçar alguma coisa. Enquanto seguíamos, topamos com sete ou oito homens de nosso grupo que se aglomeravam ao redor de um porco que haviam matado e brigavam para ver quem ficaria com a melhor parte. Chegamos bem no momento em que começavam a se socar, e assim roubamos um pedaço da caça e corremos para dentro da floresta” conta um dos membros da expedição, Anthony Knivet, em seu livro de memórias. Já os músicos de Cavendish tiveram mais sorte: caçaram oito gambás, que comeram assados, acompanhados de raízes da terra, provavelmente carás e aipins. Uma deliciosa refeição brasileira. Quando abandonaram a Ilha Grande, os então bem alimentados e restabelecidos ingleses incendiaram todas as casas e retomaram seu rumo.
A parada seguinte foi no Porto de Santos. Na noite de Natal, os ingleses atacaram e se apossaram do povoado. Em Santos, os ingleses se fartaram de comida. “Na vila havia um bom estoque de alimentos, doces cristalizados, açúcar e farinha de mandioca, com a qual fizemos ótimo pão, e trezentas cabeças de gado, que nos alimentaram todo o tempo em que lá estivemos”, conta Anthony Knivet. Confortavelmente instalados no mosteiro dos jesuítas e com alimentos em abundância, os piratas ficaram por dois meses, o que provocou o fracasso da viagem, pois acabaram perdendo a temporada correta para fazer a travessia do Estreito de Magalhães. No estreito, enfrentando frio extremo e fortes tempestades, quase toda a tripulação sucumbiu, e o explorador foi forçado a voltar para a Inglaterra. Sem a farinha de mandioca, os pães, os doces e as carnes de Santos talvez a história de Cavendish tivesse tido um desfecho diferente. O conhecido bon vivant talvez tenha sido derrotado pela barriga.
O pirata cortesão Richard Hawkins (1562-1622) teve mais sorte. Homem extremamente educado e gentil, ele pensava, acima de tudo, no bem-estar e na saúde de seus homens, ao contrário de Cavendish, que abandonava os doentes em praias desertas e desabitadas. Em 1593, com o objetivo de chegar à China e ao Japão, via Estreito de Magalhães, precisou fazer uma escala em Santos. Sua tripulação estava doente, enfraquecida pelo escorbuto, e incapaz de empreender qualquer tipo de ataque. Hawkins decidiu, então, negociar pacificamente com a população local. Escreveu uma elegante carta, propondo trocas comerciais, e pediu que um capitão a entregasse. O emissário inglês foi muito bem recebido pelos oficiais de Santos e pela população.
Conseguiu que a frota recebesse 300 laranjas e limões – fundamentais para combater o escorbuto (causado pela falta de vitamina C no organismo). “Quando os mantimentos subiram a bordo de nossos navios, uma grande alegria tomou posse da tripulação, e muitos recuperaram a saúde apenas ao avistar as laranjas e limões. Trata-se de um maravilhoso segredo do poder e sabedoria de Deus, que escondeu tão grandes e desconhecidas virtudes nessas frutas, para serem tão certo remédio para essa enfermidade”, relata Hawkins.
As autoridades de Santos enviaram a carta ao governador da capitania, Lopo de Souza, mas a resposta não foi a esperada. O governador se disse pesaroso por não poder atender a tão justo pedido. Afirmou que recebera ordem do rei para não negociar com os ingleses, e estabeleceu um prazo de três dias para Hawkins abandonar o porto. Salientou, ainda, que estava sendo generoso em consideração aos modos aristocráticos do capitão.
Diante disso, os ingleses seguiram em direção ao sul, onde encontraram algumas ilhas (talvez o Arquipélago de Alcatraz, a 45 quilômetros do Porto de São Sebastião, também em São Paulo). Toda a tripulação desembarcou, incluindo três médicos, para completar o restabelecimento da saúde da tripulação. Ao escrever sobre essas ilhas, Hawkins, um excelente observador da natureza, tornou-se o primeiro cronista a descrever a brasileiríssima pitanga: “uma espécie de cereja, de cor vermelha, com um caroço, não totalmente redonda, mas em gomos, e com um sabor extremamente agradável”. Maravilhou-se também com a exótica aparência de outra fruta: “de gosto muito prazeroso, com a forma de uma alcachofra, toda rodeada de espinhos”. Tratava-se do abacaxi. “Uma das melhores frutas que comi nas Índias”, conta Hawkins.
Mas o mais exótico alimento que saborearam foi uma espécie de sopa, cuja receita foi criada pelos médicos ingleses, com o objetivo de fortalecer a tripulação. Naquela época, a alimentação era parte fundamental na cura, e havia receitas especiais para cada tipo de doença. “Nessas ilhas encontramos grande quantidade de pequenos alcatrazes (aves das costas atlântica e pacífica da América do Sul) em seus ninhos, que reservamos para os doentes, e que fervidos com porco em conserva, e engrossados com farinha de aveia, resultaram numa sopa muito substancial”, relata Hawkins. O poderoso caldo preparou a tripulação para enfrentar a difícil e perigosa travessia do Estreito de Magalhães. Nessas ilhas, acharam também grande quantidade de uma erva riquíssima em vitamina C e indicada especialmente para combater o escorbuto: a beldroega.
No caminho para o Estreito de Magalhães encontraram um navio negreiro português, que seguia para a África. Os corsários perseguiram a embarcação, que rapidamente se rendeu. Os ingleses desarmaram o navio e se apoderaram de seu carregamento. “A nau estava abarrotada de farinha de cassave, que os portugueses chama de farinha de pau, feita de uma raiz muito parecida com batata”, explica Hawkins. Os portugueses trocariam esse precioso carregamento por escravos em Angola. Mas nas mãos dos ingleses a farinha de mandioca teve outro destino. Com o ingrediente, os homens de Hawkins fizeram deliciosas panquecas, que fritavam em manteiga, óleo, ou banha de porco, e depois polvilhavam com um pouco de açúcar. O exótico manjar passou a ser a comida preferida pela tripulação. Os corsários ingleses, quem diria, fartaram-se de beijus, um acepipe inventado pelos índios brasileiros.
Hawkins também se rendeu ao fascínio do cauim, uma bebida indígena feita a partir da mandioca macerada. E observou que os melhores eram aqueles “mastigados por uma velha”, contrariando outros cronistas que diziam que o bom cauim era feito a partir da mandioca mastigada por jovens ou virgens. Hawkins era um conhecedor. Registra três diferentes maneiras de preparar bebidas feitas a base de mandioca. Além do cauim obtido através da mastigação, muito conhecido, ele cita outras duas variedades. E fornece a receita: a mandioca era assada até ficar quase queimada, pilada até virar pó, e, em seguida, acrescentava-se água, fervia-se e deixava-se a mistura descansar por três ou quatro dias. A outra variedade era também à base do pó da mandioca torrada, misturado à água, mas sem ferver ou descansar. O resultado era “muito parecido com ale (tipo de cerveja comum no norte europeu), que é usada da Inglaterra, e da mesma cor e sabor”, afirma o corsário inglês. Muitos cronistas demonstraram repugnância ao beber o cauim indígena. Mas os ingleses encontraram nele os mesmos encantos da cerveja de sua terra natal.
SHEILA MOURA HUE é coordenadora do Núcleo Manuscritos e Autógrafos do Real Gabinete Português de Leitura e autora da edição comentada do livro As incríveis aventuras e estranhos infortúnios de Anthony Knivet (Zahar, 2007).
Saiba Mais - Bibliografia:

BERGER, Paulo. WINZ, A. Pimentel. GUEDES, Max Justo. “Incursões de Corsários e Piratas na Costa do Brasil”. In: GUEDES, Max Justo. História Naval Brasileira. vol. I, t.II. Rio de Janeiro: SDGM, 1975.
CALMON, Pedro, Brasil. Defesa da Unidade Nacional Contra a Fixação Estrangeira. Século XVI. In: BAIÃO, A. et al. (ed.). História da Expansão Portuguesa no Mundo. vol.III. Lisboa: Ática, 1940.
KNIVET, Anthony. As incríveis aventuras e estranhos infortúnios de Anthony Knivet. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.
CASCUDO, Luís da Câmara. História da alimentação no Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia


OBSERVAÇÃO NECESSÁRIA: Achei este um bom texto e o estou reproduzindo com os devidos créditos, sendo sua fonte o site:

http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos/piratas-com-fome

A imagem é da WEB e sem fonte identificável, sendo apenas ilustrativa.

sábado, 25 de setembro de 2010

As frotas portuguesa e brasileira se defrontam na Bahia.


A partir de 3 de abril, a Esquadra comandada pelo Almirante Lorde Thomas Alexander Cochrane, composta além da Nau D. Pedro I, pelas Fragatas Ypiranga e Nichteroy, Corvetas Maria da Glória e Liberal, e os Brigues Real Pedro e Guarany, partiu do Rio de Janeiro para enfrentar a resistência portuguesa na Bahia.

Logo que teve conhecimento da presença da esquadra brasileira, o Almirante português Felix Pereira de Campos fez-se ao mar com uma esquadra composta pela Nau D. João VI, pelas Fragatas Constituição e Pérola, pela Charrua Princesa Real, pela Escuna Príncipe Real, pelas Corvetas Calipso, Dez de Fevereiro, São Gualter, Regeneração e Princesa Real, o Brigue Audaz e a Sumaça Conceição. Porém, durante a saída, a Nau D. João VI encalhou, pelo que só a 30 de abril a esquadra portuguesa conseguiu deixar a Baía. Nessa altura já a esquadra de Cochrane tinha desaparecido, só voltando a ser avistada, muito ao longe, ao entardecer de 3 de Maio.

Ao nascer do Sol do dia 4 de maio, as duas esquadras estavam novamente à vista uma da outra. A brasileira encontrava-se a cerca de 24 milhas a ESE da ponta de Santo António, a navegar com a proa sensivelmente a oeste; a portuguesa encontrar-se-ia aproximadamente a 12 milhas a SW daquela ponta, a navegar para sul. Ao ser avistado o inimigo a esquadra portuguesa virou imediatamente por d'avante, por movimentos sucessivos, e dirigiu-se para norte, a rumo de interceptação com ele, com os navios formados em duas colunas paralelas. A coluna de barlavento era composta pela nau D. João VI, de 74 peças, seguida pela Fragata Constituição, de 50, pela Escuna Príncipe Real, de 26, pela Charrua Princesa Real, de 28, e pelas Corvetas Calipso, de 22 peças, e Dez de Fevereiro, de 26; a coluna de sotavento era encabeçada pela Fragata Pérola, de 44 peças, seguida pelas Corvetas São Gualter, de 26, Regeneração, de 22, e Princesa Real, de 24. O Brigue Audaz, de 18 peças, e a Sumaca Conceição, de 6, haviam sido destacados para reconhecer o inimigo, sendo mandados regressar à formatura pelas sete horas da manhã. Em conjunto, a esquadra portuguesa totalizava 366 canhões.

A esquadra brasileira encontrava-se formada numa única coluna. À frente vinha a Nau D. Pedro I, seguida pelas Fragatas Ypiranga e Nichteroy, pela Corveta Maria da Glória, e por fim, consideravelmente atrasados em relação a esta, a Corveta Liberal, e o Brigue Real Pedro; a BE da coluna, pela alheta da Pedro I, navegava o Brigue Guarany, com a missão de repetir os sinais daquele. Em conjunto, a esquadra brasileira dispunha de 242 canhões, ou seja, menos 124 que a esquadra portuguesa, o que representava indiscutivelmente uma diferença considerável.

Por volta da 10:00 horas, o Almirante Pereira de Campos ordenou à coluna de sotavento que fizesse força de vela e se coloca-se a vante da coluna de barlavento e no prolongamento dela. A idéia seria, possivelmente, depois de iniciado o combate, mandar virar por d'avante os navios da vanguarda e meter a esquadra inimiga (brasileira) entre dois fogos. No entanto, parece que, por volta das 11:30 horas, mudou de idéia. Tendo constatado que o grosso da esquadra brasileira era constituído por uma Nau e duas Fragatas e que para enfrentar o seu primeiro choque só dispunha de uma Nau e uma Fragata, ordenou à Fragata Pérola para se deixar descair e entrar na coluna, talvez a ré da Constituição. Assim fez aquela, mas, tendo perdido seguimento, abateu muito para sotavento e não chegou a ocupar o lugar que lhe havia sido destinado antes de a batalha ter começado.

Pelas 12:00 horas as duas esquadras estavam relativamente próximas uma da outra, mas o vento era cada vez mais fraco, depois de ter mudado para ENE, o que fez com que a aproximação fosse vagarosa. Entretanto os navios brasileiros tinham içado o pavilhão verde e ouro por entre os vivas das guarnições.

Lentamente, muito lentamente, as duas longas colunas de navios continuavam a aproximar-se, tudo fazendo crer que ao chegar ao alcance de tiro Cochrane, como lhe competia por estar a barlavento, orçaria de modo a ficar com os seus navios dispostos segundo um alinhamento paralelo ao dos portugueses. Mas não foi isso que aconteceu. Cochrane, como aliás a maior parte dos oficiais ingleses da sua geração, era um fervoroso discípulo da escola de Nelson, que, em vez da velha táctica do duelo de artilharia entre duas colunas, que raramente conduzia a resultados decisivos, preferia a táctica de cortar deliberadamente a coluna inimiga, embora à custa de um elevado risco, a fim de obter marcada superioridade no ponto de ruptura e assim ter a possibilidade de capturar um número significativo de navios inimigos.

Tendo Cochrane notado que entre a Escuna Príncipe Real e a Charrua Princesa Real havia um intervalo considerável não hesitou em aproveitá-lo para cortar a coluna portuguesa nesse ponto e tentar aniquilar a sua retaguarda antes que o centro e a vanguarda pudessem socorrê-la. E, por volta da 16:00 horas da tarde, tendo chegado à distância de tiro, em vez de orçar, como seria de esperar, arribou em cheio e passou com a Nau D. Pedro I entre aqueles dois navios disparando furiosamente a sua artilharia e mosquetaria por ambos os bordos!.

Respondeu a Princesa Real arribando um pouco, de forma a conservar a D. Pedro I dentro do campo de tiro da sua bateria, enquanto a Escuna Príncipe Real continuava em frente, acompanhando o movimento da coluna em que se achava integrado. Minutos depois a Fragata Ypiranga tomava posição pela alheta de BE da Charrua Princesa Real, juntando o fogo de seus canhões com a D. Pedro I. Nesta luta desigual de um fraco contra dois fortes o navio português sofreu graves avarias no aparelho e no costado e teve dois mortos e quinze feridos, alguns dos quais viriam a falecer pouco depois. Não obstante, ao ser intimado por Cochrane a render-se recusou-se a fazê-lo, continuando a responder animosamente ao fogo dos seus adversários.

A Fragata Nichteroy atacou a Corveta Calipso. Mas esta, não estando disposta a bater-se sozinha contra um navio muito mais forte, arribou e fez força de vela, afastando-se para sotavento. O mesmo fez a Corveta Dez de Fevereiro quando se sentiu ameaçada pela aproximação da Corveta Maria da Glória. A batalha se resumiu ao violento embora curto combate travado entre a Charrua portuguesa Príncipe Real e os dois navios brasileiros que a atacaram, a Nau D. Pedro I e a Fragata Ypiranga.

Entretanto durante o combate, surgiram problemas nas guarnições dos navios da Esquadra de Cochrane. Os marinheiros da Corveta Liberal e dos Brigues Real Pedro e Guarani, todos eles portugueses, recusaram-se abertamente a entrar em ação, declarando que “portugueses não se batem contra portugueses!”. Nos outros navios, em que os marinheiros portugueses estavam misturados com ingleses não tomaram aqueles uma atitude tão frontal mas iam fazendo toda a resistência passiva que podiam. No ponto alto do combate, o fiel da artilharia, o escoteiro e um cabo da D. Pedro I fecharam à chave o paiol da pólvora e declararam peremptoriamente que dali não haveria de sair mais pólvora para atirar sobre portugueses! Dominados pela força, foram todos detidos.

Surpreendido pela inesperada manobra de Cochrane, o Almirante Pereira de Campos nada mais pôde fazer do que mandar virar em roda a sua vanguarda e o seu centro e ir em socorro da retaguarda. Mas o Almirante inglês não esperou por ele. Tendo perdido a confiança nas suas guarnições não estava disposto a envolver-se numa batalha em clara inferioridade numérica. Por isso, cortou a Princesa Real pela proa, e depois de a ter acertado com mais uma salva, orçou e seguiu para o sul, procurando abrigo na baia do morro de São Paulo e João Feliz. Os outros navios da esquadra brasileira acompanharam os movimentos da capitânia.

Encontrando-se com a sua esquadra completamente desorganizada, o Almirante Pereira de Campos, só conseguiu organizar a perseguição as unidades brasileiras algumas horas depois, já ao cair da noite do dia 4 de maio.

Ao amanhecer do dia 5 de maio a esquadra de Cochrane já não era mais avistada. A força naval portuguesa continuou em patrulha ao largo de Salvador até o dia 21 de maio, quando recolheu-se ao porto para reabastecimento, sem que os navios de Cochrane fossem novamente avistados.

Acompanhada apenas da Corveta Maria da Glória, a Nau Pedro I passou a fustigar os navios mercantes portugueses ao largo ou fundeados próximos a Salvador, realizando o bloqueio desse porto.

Em 2 de julho, já ficando já sem suprimentos, o General português Madeira de Melo, suspendeu com uma força de 78 navios, escoltados por 13 navios de guerra do Almirante Pereira Campos, com destino a Europa, sendo perseguidos pela Esquadra Imperial Brasileira até a latitude 4º N, e mais tarde apenas pela Fragata Nichteroy, sob o comando do Capitão-de-Fragata John Taylor, que os deu caça até as costas de Portugal.


Fonte:
Navios de Guerra Brasileiros
http://www.naviosdeguerrabrasileiros.hpg.ig.com.br/P/P052/P052.htm
Acesso em: 25/09/2010.

Wikipédia, a enciclopédia livre. Thomas Cochrane. http://pt.wikipedia.org/wiki/Thomas_Cochrane .
Acesso em: 29/08/2008.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

O nascimento da Marinha de Guerra do Brasil.



Agora vou pular muitos dos acontecimentos navais ocorridos nos tempos coloniais para tratar do tema acima referido, que reputo muito importante, pois boa parte da nossa história como estado soberano dependeu da sua marinha militar.
O Brasil, na época de sua Independência, assemelhava-se mais a um arquipélago do que a um país de território contínuo. Em outras palavras, no seu território haviam imensos vazios populacionais. Ainda, as diversas regiões de colonização estavam praticamente isoladas por terra entre si, por falta de estradas entre elas.
Essas principais regiões eram, o Sudeste, com o Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais; o Leste, com a Bahia; o Nordeste, com Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e outras províncias; o Sul, com o Rio Grande do Sul e a Cisplatina (futuro Uruguai); e o Norte, com o Pará e o Maranhão. Todo o seu imenso território era habitado, em 1822, por uma população de cerca de 4,5 milhões de pessoas, conforme estimativa existente.
Existiam, porém, regiões que não apoiavam o Príncipe. Assim, a Bahia, a Cisplatina,o Pará, Maranhão e Piauí se mantinham fiéis a Portugal. Outras estavam indecisas. Pernambuco aderiu à causa de D. Pedro em junho de 1822 e a Paraíba, logo depois. Na Bahia irrompeu a luta armada entre as duas facções e lá o brigadeiro Madeira de Mello, comandante luso, teve que fixar a sua posição em Salvador, pois os rebeldes, fiéis a D. Pedro, dominavam o interior da província.
Já existia no Brasil uma infra-estrutura de arsenais de marinha, fundamental para que fosse possível manter os navios em operação, e, também, para construir novos. O melhor estabelecimento construtor, era o da Bahia, mas este estava em território que continuava nas mãos de tropas fiéis a Portugal. Coube então ao Arsenal do Rio de Janeiro recuperar os navios de origem portuguesa, que aqui ficaram.
Mas, não bastavam navios, eram precisos homens para tripula-los. Alguns dos portugueses, que permaneceram no Brasil, aderiram a Independência apenas para conservarem suas propriedades, ou mesmo as suas famílias. Não estavam motivados para lutar contra seus patrícios e, portanto, não eram confiáveis.
A melhor solução foi a de se contratarem oficiais e marinheiros estrangeiros que, após as Guerras Napoleônicas, estavam disponíveis e prontos para continuar a guerrear. Coube a Felisberto Caldeira Brandt, depois marquês de Barbacena, que se achava na Europa a tarefa de recrutar e fazer viajar para o Brasil marinheiros e oficiais estrangeiros, tendo arrebanhado cerca de 550 estrangeiros para a Marinha, em sua maioria britânicos.
Um deles, Alexander Thomas Cochrane (1775-1860), estava no Chile e não na Europa. Mas quem era ele? Com a idade de 17 anos ingressou na armada britânica em 1793, na qualidade de guarda-marinha. Nela combateu nas guerras contra Napoleão, tendo demonstrado tanta ousadia em suas operações navais que o próprio imperador francês o apelidou de Loup de Mer (lôbo do mar). Paralelamente à sua carreira naval foi eleito membro do Parlamento. Resultou condenado à prisão em 1814, por haver realizado supostas atividades fraudulentas, vendo-se obrigado a abandonar a carreira naval e após transferindo-se para o Chile. Ali, ele comandara, com êxito, as suas forças navais contra os espanhóis, nas lutas da independência.
Era brilhante no mar, um grande tático, criativo, destemido, um formidável guerreiro. Pela suas grandes qualidades militares, a sua escolha para comandar toda a nascente marinha de guerra brasileira foi realmente acertada.
No dia 03 de abril, o Rio de Janeiro viu os navios da força naval comandada pelo Almirante Cochrane – a nau Pedro I, a fragata Piranga, as corvetas Liberal e Maria da Glória e os brigues Real Pedro e Guarani – saírem da barra com destino à Bahia, com a Fortaleza de Santa Cruz saudando-os com seus canhões. Já a fragata Niterói também pertencente a esquadra saiu discretamente no dia 12, comandada pelo Capitão-de-Fragata John Taylor.
De qualquer forma, garrida ou discreta, sua missão era essencial para o futuro do novo país, que só se manteria unido se expulsasse daqui as forças portuguesas, antes que elas fossem reforçadas pela velha metrópole lusa. E, embora muitos duvidassem então, sua jornada seria decisiva para o pleno êxito da causa brasileira.

Fontes:

BITTENCOURT, Armando de Senna. Da Marinha de Portugal forma-se uma marinha para o Brasil, 1807 a 1823. A Casa da Torre de Garcia D’Ávila.http://www.casadatorre.org.br/FORMA-SE_A_MARINHA_DO_BRASIL.pdfAcesso em: 29/08/2008.

Wikipédia, a enciclopédia livre. Thomas Cochrane. http://pt.wikipedia.org/wiki/Thomas_Cochrane . Acesso em: 29/08/2008.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Um cruel visitante aportou em Santos num Natal do século XVI.


Em 1583, o corsário inglês Edward Fenton entrou e permaneceu no ancoradouro santista com suas embarcações, quando foi surpreendido pelas naves do comandante André de Equino, com o qual trocou fogo de artilharia. Sobre isto veja: Edward Fenton visita o porto de Santos e ali entra em combate. O episódio serviu de alerta para mostrar o perigo a que ainda estava exposta a vila de Santos, sem defesa segura contra as incursões piratas.
Diante de tal ameaça dos inimigos da Espanha, o Rei Felipe II determinou que fosse levantada uma fortaleza na entrada da barra, do lado da atual ilha de Santo Amaro, que foi chamada de Fortaleza da Barra Grande e cuja construção se estendeu até 1590.
Seguia Santos o seu curso normal de vida, e já agora com esta fortaleza levantada, quando três barcos piratas da frota do almirante Thomas Cavendish surgiram no porto de Santos. Eram o Roebuck, do Capitão Cocke, o Desire, do Capitão John Davies, e o Black Pinese, do Capitão Stafford. Cocke que a todos comandava, valendo-se da noite escura e tormentosa de 24 de dezembro, com os demais navios invadiu a barra e passou despercebido ante a Fortaleza da Barra Grande, fundeando em frente da Vila na manhã do dia 25.
Ali mandou Cocke uma intimação ao pequeno Forte da Vila: que se rendesse ou seria destruído imediatamente pelos canhões já assestados. Este fora construído no tempo de Braz Cubas, na atual Praça da República, ocupando aproximadamente as áreas dos prédios da Alfândega e da Recebedoria de Rendas. Como haviam anos que a paz da Vila não era perturbada por agressores de mar afora, e uma grande fortaleza agora defendia a estreita passagem do porto, desprevenidos e descuidados estavam os homens do fortim, tanto quanto os moradores de toda a vila. E, assim, nenhuma resistência foi feita aos poderosos corsários, numerosos e bem armados.
Diante da ausência de reação, as embarcações miúdas daquela frota passaram a despejar na praia bandos de homens ruivos, de olhos azuis, grandalhões e barbudos e armados de mosquetes e piques; estes soltando gritos espantosos, foram matando quem esboçava a menor resistência, invadindo as casas, saqueando-as, apoderando-se também da Casa da Câmara e ocupando posições convenientes para dominar a povoação.
E um clamor correu de boca em boca por toda a população espavorida ao avista-los: - os piratas ingleses!
A maioria da população estava na Igreja Matriz, sendo orçadas em 300 pessoas que lá se encontravam comemorando o Natal; todos foram retidos no templo, enquanto os ingleses saqueavam a vila. Mais tarde, realizado o primeiro saque e reunidas as forças invasoras, o povo, que se achava na igreja, recebeu ordem de abandoná-la, continuando detidos apenas os mais ricos e mais capazes de lutar em defesa da terra.
No dia seguinte, 26 de dezembro, Thomas Cavendish aportou com o restante da sua esquadra, pois ficara de atalaia nas proximidades de São Sebastião, com outros dois navios: o Leicester, do Capitão Southwell, e o Daintie, do Capitão Barker. De imediato, fez desembarcar duzentos homens para reforçar o efetivo de terra. Também mandou saquear e queimar todos os navios que se encontravam no porto. E, prosseguindo na sua operação de pilhagem, seus homens foram por terra até São Vicente, saqueando e queimando todos os engenhos, que encontrava pela frente, e ainda pilhando e incendiando igualmente o vizinho povoado, deixando atrás de si um rastro de ódio e pavor.
Mas quem era a sanguinária criatura aqui citada? Cavendish era natural de Trimby, na Grã-Bretanha, e recebera a carta de corsário da Rainha Elisabeth, inimiga figadal do Império Espanhol, sob cujo domínio se encontravam Portugal e o Brasil quando aquele atacou Santos. Sua imagem é aquela aqui estampada.
E o que houve com a população local durante a permanência dos corsários? O ataque súbito e selvagem, provocou a fuga de quase todos os moradores, com suas mulheres e filhas, para as matas vizinhas, onde ficaram a salvo da sanha corsária. Só depois de dois meses de estada em nosso porto, e não tendo mais nada o que levar ou depredar, Cavendish com seus navios tomou rumo do Sul.
No ano seguinte, após uma ausência de nove meses, o grande corsário voltou à barra de Santos, e, pairando ao largo, a três léguas da Vila, mandou apressadamente a terra vinte e cinco homens, ao mando dos capitães Stafford, Southwell e Barker, com ordens de, a todo transe, tomarem víveres de que tinha extrema necessidade para socorro de sua tripulação esfomeada e quase toda ela enferma.
Desta vez, encontrou a postos os homens válidos de Santos, e sua gente foi afrontada pela de terra, emboscada nos matos e auxiliada por indígenas agregados; e, do reencontro que houve, apenas escaparam vivos dois dos corsários, que foram levados ao recinto da vila, acompanhando as cabeças dos companheiros mortos, fincadas em espeques apanhados no mato, levantados como estandartes à frente do estranho cortejo.
Com este resultado desenganou-se definitivamente Cavendish de prosseguir em novas tentativas sobre a ilha de São Vicente e, fazendo-se ao mar, navegou para a costa do Espírito Santo, pondo em saque toda a costa intermediária, onde, ao que sabemos, acabou por sofrer irremediável derrota, causada por índios e portugueses conjugados.
Ao abandonar o Espírito Santo, derrotado e abatido, Cavendish rumou para São Sebastião, lá deixando na ilha, todos os enfermos e feridos da armada. Entre esses enfermos estava Antonio Knivet, o marinheiro, que, restabelecendo-se ali, ainda empreendeu aventuras pelos sertões, acabando por deixar uma pequena história das peripécias que passara, em terra e no mar, em companhia de Cavendish, conservando, para a posteridade, algumas das atrocidades do grande corsário; parte da qual foi aqui reproduzida.
O grande corsário morreria na sua volta à Inglaterra, terminando assim, por força de privações, de fome e falta de medicamentos, uma existência tão perniciosa à navegação do Atlântico meridional naqueles primeiros tempos da colonização.
Divergem, porém, os autores aqui mencionados acerca do ano em que ocorreu a primeira invasão: 1588, 1590 ou 1591. Isto até hoje não foi elucidado e nem o será. De qualquer forma, sabe-se que foi no Natal num daqueles anos.

Fontes:


MUNIZ JR., J. Novo Milênio. http://www.novomilenio.inf.br/santos/h0049f1.htm . Acesso em: 21/07/2008.

BARROSO, Gustavo. Natal de Sangue de Thomas Cavendish. Novo Milênio. http://www.novomilenio.inf.br/santos/h0049f2.htm . Acesso em 21/07/2008.

MARTINS DOS SANTOS, Francisco e MARTINS LICHTI, Fernando. História de Santos/Poliantéia Santista. Santos, 1986, primeiro volume.Novo Milênio. http://www.novomilenio.inf.br/santos/h0049f3.htm . Acesso em: 21/07/2008.

Novo Milênio. http://www.novomilenio.inf.br/santos/fotos021.htm . Acesso em: 21/07/2008.

sábado, 12 de janeiro de 2008

Edward Fenton visita o porto de Santos e ali entra em combate.


Em 1581 desembarcou em Santos, um britânico, John Whithall, que sendo hábil ferreiro chamou a atenção de José Adorno, comerciante local que o empregou e acabou casando sua filha com ele. Whithall, ex-marinheiro, escreveu aos seus familiares na Inglaterra narrando sua nova vida e as poucas riquezas da época ali existentes.
Isto contribuiu para que, na manhã de 16 de dezembro de 1583, surgisse na barra de Santos o seu conterrâneo, Edward Fenton, comandando uma nau e dois galeões armados, transportando talvez duzentos homens de combate Sobre isto Rocha Pombo e Varnhagen acusam apenas dois galeões nesta esquadra.
Nesta ocasião, ele apresentou-se como desejoso de fazer reparos em seus barcos e para isto buscou contatar Whithall. Inclusive, Fenton desceu a terra ver um lugar onde o ferreiro Whithall pudesse erguer uma forja, e ali colocar os fornos portáteis para fundir as peças necessárias. Parecia que tudo iria decorrer normalmente, mas no dia seguinte Whithall foi a bordo dizer que, os portugueses tinham mandado para fora as mulheres e fortificado a vila, pelo que aconselhava fossem os navios, imediatamente, ancorar diante dela.
Depois dele ai foram José Adorno e um português Estevan Raposo, com a notícia de que, dentro em poucos dias, o Governador concederia audiência a Fenton, podendo os ingleses, entretanto, prosseguir nos seus trabalhos de forrar de cobre os navios, efetuar trabalhos de carpintaria neles, pescar e realizar as demais operações necessárias, mas que não exigissem forja nem fornos, antes de serem recebidos pelo governador. Os importantes visitantes foram convidados para jantar a bordo e até obsequiados com presentes, desembarcando após o ágape.
Toda esta maneira diplomática e sutil de proceder dos ingleses devia-se a instruções que eles tinham recebido de seu comandante, de nome Luke Ward, que lhes proibira de empregar violência contra os lusitanos, exceto em defesa própria. E ainda toleraram a posterior devolução dos presentes feitos a Adorno, sem qualquer reação mais rude.
Não sabiam os britânicos, que uma armada espanhola, comandada pelo almirante Dom Flores Valdez encontrava-se em águas sul-americanas, e que uma esquadrilha desta achava-se em Santa Catarina, sob a direção de André de Equino. A má nova sobre os intrusos chegou a este, o que o levou a navegar para o porto de Santos, na esperança de encontrá-los. Quando os navios espanhóis surgiram à boca da barra santista, a população local em alerta prontamente os informou da posição exata dos navegantes ingleses no porto.
Na noite de 24 de janeiro de 1584, entrou André de Equino com seus três galeões pelo estuário de Santos, quase surpreendendo os ingleses, que ainda assim puderam travar combate e defender-se de modo eficiente e corajoso, mercê do seu ótimo aparelhamento de guerra. Durou esse combate grande parte da noite, e, ao seu final, os navios de Fenton conseguiram fugir; exceção de um deles, que foi abordado e tomado de assalto, com toda a sua artilharia. Outros historiadores dizem que foram os espanhóis, que combatendo perderam uma de suas naves.
A atitude pacífica de Fenton em sua estada no porto santista valeu-lhe o não ser perseguido pela esquadra espanhola, que, somente alguns dias depois, deixou o ancoradouro, para encontrar-se com o restante da sua armada.
No fundo a vinda dos indesejados visitantes não passou de um susto para os santistas e ocorreu numa boa época para os espanhóis que vigiavam o império português. Estando próximos, socorreram prontamente o pequeno burgo portuário, e atuando com eficiência e destemor, afugentaram os intrusos. Estes se mostraram eficientes em suas manobras e na reação ao ataque, e safaram-se daqui para nunca mais voltar. De qualquer forma, tudo isto reforçou o prestígio do rei espanhol na pequena colônia luso-brasileira.
Anote-se que a imagem aqui reproduzida, não é parte integrante do tema, referindo-se a outro acontecimento naval, mas servirá para bem ilustrar o ocorrido.
Fontes:

FROTA, Guilherme de Andréa. 500 ANOS DE HISTÓRIA DO BRASIL. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército. Edição 2000.

Novo Milênio. A passagem de Edward Fenton. http://www.novomilenio.inf.br/santos/h0049a3.htm. A matéria virtual contem trechos da obra História de Santos, de autoria de Francisco Martins dos Santos 2.ª edição, Santos-SP, 1986. Acesso em: 07/01/2008.

Wikipédia, a enciclopédia livre. quadro a óleo "Defeat of the Spanish Armada", 8 August 1588 by Philippe-Jacques de Loutherbourg, painted 1796 depicts the battle of Gravelines. http://pt.wikipedia.org/wiki/Imagem:Spanish_Armada.jpg. Acesso em: 12/01/2008.