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sexta-feira, 3 de abril de 2015

Batalha Naval do Riachuelo e sua influência sobre o destino da Guerra do Paraguai.

                                                             
                                                             Breve introdução:


Velhos e bons livros acabam esquecidos em prateleiras de bibliotecas e por causa disso bons textos deixam de vir ao conhecimento público. Pensando nisto reproduzo este fragmento de um deles, que se vê a seguir, com o devido crédito, para assim divulga-lo aos que porventura leiam este blog. Claro, acresci tudo de algumas imagens, inexistentes no original, para lhe dar mais vida e colorido.

BATALHA NAVAL DO RIACHUELO E SUA INFLUÊNCIA SOBRE O DESTINO DA GUERRA COM O PARAGUAI

“Ao observador superficial dos nossos fatos históricos parecerá exagerada a afirmação de que a batalha do Riachuelo exerceu influência decisiva sobre o desenvolvimento das operações e o desfecho final da guerra a que nos arrastou o déspota do Paraguai. Isto porque, travada a batalha a 11 de junho de 1865, a guerra só terminaria, no entanto, quase cinco anos depois, a 1.° de março de 1870. Como influência decisiva  perguntarão muitos — se a luta ainda se prolongou por tão longo tempo?

Antes de tudo, precisamos considerar a posição e o valor numérico das forças beligerantes de terra na ocasião do recontro naval, bem como, principalmente, a orientação político-estratégica dos nossos inimigos.


                                                           

(Solano Lopes em tela a óleo)
 
 
Quando Solano Lopez, com aprisionar ostensivamente o "Marquês de Olinda", atirou-nos o cartel de desafio para a luta, o Brasil levantou-se estremunhando, pois que era então, como ainda hoje, o eterno gigante que dorme. Desprevenido de recursos bélicos, sonhando utopisticamente com as delícias da paz, ele assistiu quase que estarrecido à invasão do seu território, sujeitas as populações e cidades fronteiriças aos vexames impostos por uma onda de bárbaros — desde o assassínio frio ao estupro, desde o roubo desenfreado ao talamento dos campos. Diante da situação de fato, apelou-se para o nunca desmentido patriotismo dos brasileiros como o remédio salvador de todos os tempos. E de toda parte acorreram voluntários. E organizaram-se batalhões. E adquiriram-se armamentos. E encomendaram-se navios. E pensou-se, enfim, na realidade brutal da guerra.
 


(apresamento do navio Marques de Olinda no Paraguai)


 

Os nossos aliados do Prata não estavam melhor preparados. De modo que em junho de 1865, as tropas que podíamos contrapor aos invasores eram, em Corrientes, os 6.500 homens dos generais Paunero e Caceres, e, mais aquém, na Concordia, os 12.000 recrutas de Osório e Mitre.
E eles — os paraguaios - que apresentavam contra nós? Robles, à frente de um poderoso exército de 25 mil homens, depois de atravessar o Paraná no Passo da Pátria, invadira Corrientes e avançava paralelamente ao grande rio com destino a Entre-Rios. Estigarribia e Duarte, comandando o primeiro uma coluna de sete mil e quinhentos homens e o segundo outra de três mil, caminhavam em cada uma das margens do Uruguai rumo da vila brasileira de Uruguaiana e da corrientina de Restauracion. As hostes de Barrios e Resquin assolavam Mato Grosso.
Que objetivos guiavam as forças paraguaias? Dirigindo-se a Entre-Rios contava Robles com o anunciado apoio dos federais chefiados por Urquiza. Penetrando na República Oriental tinha Duarte como certo levantar os blancos, inimigos rancorosos do Império, e com eles constituir a vanguarda do exército invasor. Resta Estigarribia. Este, invadindo a próspera província do Rio Grande, tencionava nela implantar a desordem, e talvez a desagregação, promovendo um levante de escravos para mais facilmente conseguir seus objetivos militares.
 
Nestas condições, para a completa realização do plano de Lopes, apenas faltava a livre navegação do Paraná, que a esquadra brasileira interceptava, impedindo não só o abastecimento por via fluvial ao grande exército de Robles, como, ademais, ameaçando cortar-lhe a retirada.
 
Com efeito, quer bloqueando o território paraguaio nas Tres Boccas, quer concorrendo eficazmente para a retomada de Corrientes, a nossa força naval apresentava-se, além de adversário temível, como o entrave mais sério a ser vencido no momento.
 
Daí deixar Lopez Assunção e, dirigindo-se a Humaitá, organizar ele próprio a expedição temerária que resultou no fracasso do Riachuelo. O plano era muito simples. A nossa esquadra, fundeada um pouco abaixo da cidade argentina de Corrientes, compunha-se, no dia 10 de junho, de nove unidades. Lopez escolheu, por sua vez, nove de seus melhores navios, guarneceu-os com o escol da Marinha e do Exército paraguaios, entregando o comando deles ao mais antigo dos seus oficiais de mar, o velho comodoro Mezza, provecto conhecedor da navegação do Paraguai e do Paraná. Esses nove navios, partindo de Humaitá na noite de 10, deveriam alcançar a esquadra brasileira na madrugada do dia 11. Cada navio paraguaio abordaria um dos navios brasileiros. Estes, atacados de surpresa, decerto não resistiriam; mas se resistissem, repelindo a abordagens, lá estavam para impedir-lhes a fuga as seis chatas armadas com rodízios de 68 e 80 trazidas a reboque pela força de Mezza e, mais do que isso, a formidável bateria de 22 bocas de fogo e os dois mil atiradores dispostos por Bruguez nas barrancas do Riachuelo.

"Acaben com los brasileños pero traigan sus buques intactos para refuerzo de nuestra escuadra!" — foram as últimas palavras da proclamação de El Supremo aos expedicionários. Um dos seus navios, porém, o "Yberá", sofreu um desarranjo nas máquinas e ficou no caminho. As 14 unidades restantes (oito navios e seis chatas), prejudicadas na sua marcha por esse contratempo, só às 9:00h da manhã defrontavam os navios brasileiros.

Parece que o chefe Mezza não se sentiu com coragem para a realização da abordagem em pleno dia, encontrando a nossa força, como encontrou, perfeitamente aparelhada para o combate. Daí a sua resolução de desfilar a toda velocidade pela nossa frente e ir postar-se sob a proteção da artilharia de Bruguez, junto à embocadura do Riachuelo, onde o foi buscar, para derrotá-lo, a intrepidez e competência profissional de Barroso.
 
                       
                                                (Batalha Naval do Riachuelo – tela de Victor Meirelles)

 
 

Se nós tivéssemos perdido a batalha, é fácil de acompanhar o rumo que tomariam os acontecimentos. A esquadrilha paraguaia, descendo o Paraná, faria de Montevidéu sua base estratégica de operações. Robles teria o caminho desimpedido, e certamente as simpatias dos entrerrianos pelo Paraguai não se resumiria na demonstração platônica da debandada de Basualdo, senão num apoio mais decidido. Reforços seriam enviados a Estigarribia e a Duarte, e tanto a República Oriental como a província do Rio Grande seriam dominadas inteiramente.

O pensamento vacila, atemorizado, ante a perspectiva que se desdobra! Se completamente isolado do exterior como ficou desde o começo da guerra, pôde Lopez sustentar a luta durante cinco longos anos, obrigando-nos a despesas fabulosíssimas e ao sacrifício de cem mil vidas, que não faria ele se atingisse Montevidéu e dominasse de pronto a navegação do Paraguai e do Paraná? A que imensas proporções não atingiria a campanha se a República mediterrânea pudesse receber do mundo inteiro, que a olhava com simpatia os recursos que o nosso bloqueio não lhe permitiu adquirir? Recebendo da Inglaterra e da França os encouraçados que aí tinha em construção quando rebentou a guerra, o arrojo do ditador paraguaio decerto nos viria combater dentro da própria capital do Império!

Isolado do mundo, o Paraguai, graças a las onzas de oro que o Ministro Berges distribuía, conseguiu as simpatias de grande parte da imprensa universal. Vencedor no Riachuelo, com a chave do Prata nas mãos, todos os louvores seriam para o jovem David — como chegou a ser comparado — que arrostava impavidamente as fúrias imperialistas do gigante Golias...

Felizmente, porém, fomos os vencedores. E as consequências também não se fizeram esperar. Duarte, pouco depois, em Itajaí, era fragorosamente batido pela vanguarda do exército aliado ao mando do general Flores. Estigarribia, isolado em Uruguaiana, rendia-se sem dar um tiro. Robles era obrigado a retroceder da posição ocupada, e, mais tarde, a evacuar Corrientes.

A batalha naval do Riachuelo, portanto, considerada sob o ponto de vista das consequências políticas imediatas, teve uma importância decisiva sobre a sorte de toda a campanha. Sob o ponto de vista militar sua importância foi ainda mais decisiva, porquanto destruímos o poder naval adversário continuando com o domínio pleno de toda a navegação fluvial.


 
 
(bandeira imperial do Brasil)

Resta a descrição da batalha. Esta, porém, está tão viva, no espírito e no coração dos brasileiros, que fora supérfluo aqui rememorá-la. Basta dizer que os feitos dos que nela se empenharam de nossa parte — desde o chefe ao menos graduado dos tripulantes constituem exemplo e padrão de orgulho para as gerações que se sucedem. Barroso, Pedro Affonso, Hoonholtz, Greenhalgh, Marcilio Dias são hoje figuras lídimas de heróis não apenas do Brasil, senão do próprio continente sul-americano!”

 


 

 
 
 
Fonte: PRADO MAIA. Através da História Naval Brasileira. São Paulo: Companhia Editora      Nacional. Edição 1936.
 
 
 

 

domingo, 22 de março de 2015

Corsários holandeses atacam Santos e São Vicente no século XVII.


(Le portrait de Capo de St. Vincent en Brésil- estampa de Miroie Oest et West Indical, publicada em 1621 por Jan Janez, editor de Amsterdam)

 
Neste desenho do século XVII se resumem com escassa precisão e diversos erros palpáveis o cenário das ações desenvolvidas por corsários holandeses contra as vilas de São Vicente e Santos, sitas na Ilha de São Vicente, em 1615, e a reação a eles opostas por seus habitantes.

Mas, é bom antes de tudo se começar rememorando o passado distante, lembrando-se que os holandeses participaram do empreendimento açucareiro no Brasil, oriundo do reino de Portugal, desde os seus primórdios. Mas, em 1580, Felipe II, rei da Espanha, ascendeu ao trono português, sendo por sua morte sucedido no trono luso por mais dois reis hispânicos. Foi a chamada União Ibérica, que perdurou até 1640. Totalmente impedidos durante ela de continuar a participar dos lucros da indústria açucareira brasileira, por serem ferrenhos inimigos dos espanhóis, os batavos partiram para o uso da força, o que explica este feroz episódio, que tanto traumatizou aos colonizadores da Ilha de São Vicente.

Voltando agora aos fatos objetos desta devo destacar a origem da frota atacante, que navegava sob a bandeira da “Vereinigda Oostindische Compagnie” (VOC), uma entidade tão importante, que merece algumas explicações sobre ela..

A VOC (Vereinigda Oostindische Compagnie), ou Companhia das Índias Orientais,  surgiu em 1602 pela fusão de várias firmas de navegação holandesas, formando a primeira empresa multinacional, de responsabilidade limitada e de capital aberto que se teve notícias.

 
 
(bandeira da Companhia Neerlandesa das Índias Orientais)


Receberam do estado holandes a liberdade de contratar soldados, construir embarcações de guerra e emitir moeda, tudo em nome dos Estados Gerais. Ao contrário de sua irmã, a GWC (Companhia das Índias Ocidentais), que encontrou a falência nas lutas dentro do Brasil, a VOC prosperou nas terras do Oriente, e lançou as bases do colonialismo holandês naquela parte do globo. A forma capitalista da empresa lhe deu um grande impulso, e os lucros obtidos compensavam as guerras com portugueses, ingleses e espanhóis no Oriente, de forma que a Companhia remeteu a Holanda grandes somas nas décadas que se seguiram à sua criação, e também expandiu o mundo colonial holandês de forma muito significativa na conquista territorial.
 
 
E quem era o comandante corsário desta importante flotilha de guerra? Foi Joris Van Spilbergen, um duro combatente naval, que alugando seus préstimos navegou em muitas águas a partir de 1596, tendo estado presente em expedições armadas na África, na Ásia, na Espanha (em Gibraltar então espanhola), na América espanhola e portuguesa (México, Chile, Brasil) e até nas Filipinas.
 

Em agosto de 1614, Van Spilbergen foi enviado pela Companhia das Índias Orientais (VOC)  com o propósito de procurar um caminho mais curto para as Molucas, pelo estreito de Magalhães, e teve sob suas ordens seis navios: — o Groote Zon, o Groote Maan, o Jager e o Meeuw, da Câmara de Amsterdã; o Eolus, da  Zelândia e o Morgenster, de Roterdã. Como já disse a VOC era privada, mas tinha atuação internacional, e gozava de prerrogativas excepcionais concedidas pelo governo holandês já antes explicadas.
 
(embarcação holandesa da VOC)


Van Spilbergen durante este cruzeiro em suas fainas marítimas acabou incursionando por águas brasileiras e nelas apresou uma caravela portuguesa com boa carga (provavelmente esta era a sétima embarcação que aparece no desenho), dirigindo-se então a ilha de São Vicente. Naquela época, Portugal, do qual dependia o Brasil, ainda era governado pelo rei espanhol, Filipe III, persistindo ainda conflitos armados entre Espanha e Holanda, razão do ataque não provocada às pequenas vilas luso-brasileiras.

(Filipe III, rei da Espanha e de Portugal em óleo de Pedro Antonio Vidal)

Sobre sua incursão existe uma versão holandesa, totalmente facciosa, pela qual os navegantes batavos tinham vindo em paz e “foram recebidos pelos portugueses de forma hostil, e (com eles) falharam todas as tentativas para estabelecer relações comerciais, razão porque os holandeses abriram de novo suas velas deixando aquelas regiões inospitaleiras”. A verdade, porém, é que a sua inusitada visita e estadia ai foram marcadas pelo derramamento de sangue, destruições e saques.

De qualquer forma, como sobre tudo aquilo só exista aquele impreciso desenho, eu o reproduzo novamente em outra imagem, desta vez colorida, para assim melhor fazer diversos comentários.


(a mesma gravura colorida digitalmente por Victor Hugo Mori, IPHAN, SP)


Neste já se veem sete embarcações holandesas, sendo cinco agrupadas e duas deslocadas, fora um navio português incendiado. Uma delas, a esquerda e acima (Meeuw ou Gaivota) vigia o porto de São Vicente, enquanto a direita e abaixo no canal está outra (Jager ou Caçador) a certa distância de uma fortaleza, cujo fogo os seus escaleres de reconhecimento não ousaram enfrentar. Logicamente, esta é a fortaleza da Barra Grande, sobre a qual depois irei discorrer. Havendo ainda uma incursão em outros escaleres inimigos em demanda a vila de Santos.

As duas vilas de Sanctus e St. Vincent têm portas, estacada, igrejas, edifícios altos, sendo a segunda maior do que a primeira. Notam-se em diferentes pontos do litoral numerosas tropas de índios e brancos armados, à espera do desembarque dos batavos.

A ilha de Santo Amaro não chega a encobrir a entrada da baía e não apresenta uma larga costa oceânica, como de fato acontece. Consequentemente, o canal da Bertioga sai dentro da baía, e leva o autor do desenho a alguns enganos. O principal deles é localizar a vila de Santos na ilha de Santo Amaro, quando na realidade ela está sobre a margem direita, na ilha de São Vicente, bem em frente ao estuário existente entre esta e a ilha de Santo Amaro.

Para melhor entender a realidade é bom se examinar o mapa abaixo, que é atual, mas mostra as duas ilhas e o continente, sem esquecer Santos, São Vicente e Bertioga, como realmente eram e são até hoje.


(parte do litoral paulista em desenho atual)


Veem-se ainda outras cenas importantes, a saber: o incêndio de um engenho (de Jerônimo Leitão), de uma igreja ("Santa Maria das Naus" ou "Nossa Senhora das Naus") e de um depósito de açúcar (trapiche do Engenho de Jerônimo Leitão). Fora outras também importantes, como a cena de um desembarque batavo e uma outra de uma marcha deles em formatura. Fora outras de pouca importância: um índio balançando-se numa rede, e mais dois índios nus, logicamente algo que atraiu a curiosidade do desenhista. Sobre aquele engenho, seu trapiche e a igreja então destruídos, destaco que o primeiro chamava-se Engenho Nossa Senhora das Naus, realmente era de Jerônimo Leitão e fora construído junto ao Mar Pequeno, aonde hoje se situam as ruínas do chamado Porto das Naus, tudo isto em São Vicente. Tão isolados foram fácil presa dos irascíveis holandeses.
Diante deste quadro percebe-se que as coisas foram bem duras na Ilha de São Vicente. Mas, seus habitantes não se acovardaram e reagiram o melhor que puderam aos invasores. Era então Capitão-mor da Capitania, Paulo da Rocha Siqueira, residente em Santos, e foi ele com os principais homens da terra, quem iniciaram a resistência. Amador Bueno da Ribeira, aquele que bem depois não quis ser rei paulistano, sabendo do que ocorria na baixada desceu de São Paulo, aonde vivia, com um corpo de paulistas e de índios, armados à sua custa, e que fora engrossado por outros paulistas eminentes e seus colaboradores, em socorro das vilas ilhoas. Todos eles unidos corajosamente salvaram as duas povoações, após rudes combates na faixa praiana, com o apoio dos canhões da Fortaleza da Barra Grande e de algumas peças de artilharia postadas na praia do Embaré. Diante da forte reação os invasores desistiram de seus maus intentos, retiraram-se para seus navios e neles partiram, para nunca mais retornar. Graças a Deus!

Durante os fatos teve importante papel defensivo a Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande, cujos fogos causaram mortes e danos aos invasores, auxiliando muito aos demais combatentes luso-brasileiros.

 



(Fortaleza da Barra Grande – desenho de Lauro Ribeiro da Sila – RIBS)


Esta, fora erguida em 1584, por ordem do rei Felipe II, na embocadura do estuário de Santos, conforme projeto do arquiteto militar, Giovanni Battista Antonelli. Ela foi então assentada sobre um esporão rochoso, coberto pela Mata Atlântica, que se projetava sobre o canal de acesso ao Porto de Santos. E foi levantada quando esta  necessidade se tornou patente após a ação militar vitoriosa de Andrés Higino, da esquadra de Valdez, contra os navios ingleses de Edward Fenton, em 1583, algo de que já tratei anteriormente neste blog.

Como agradecimento pelo seu papel nas pugnas então ocorridas, Amador Bueno da Ribeira tornou-se logo depois Capitão-mor de São Vicente, uma grande honra, que ele aceitou, mas sem aceitar receber por isto qualquer remuneração, algo que ele próprio impôs espontaneamente.

Não custa se dizer, que Santos e São Vicente, dependiam especialmente naquela época da exploração do açúcar, que era cultivado em Cubatão e no sitio São Jorge (neste surgiu muito depois um dos bairros santistas, a Vila São Jorge), aonde havia um dos diversos engenhos, chamado dos Erasmos, fora diversos outros em toda a área, sendo depois o açúcar neles produzido exportado através do pequeno porto santista. Criava-se também gado, curtindo-se seus couros, com isto garantindo-se alimentação e rendas. Os indígenas assimilados também trabalhavam e recebiam em pagamento quinquilharias havendo então pequeno número de escravos negros. As duas vilas eram fortificadas para preserva-las dos índios selvagens e dos corsários, contando até com pequena artilharia para tal. Isto foi muito bom, pois senão elas teriam sido arrasadas pelo feroz Spielbergen. Daquela época distante só restaram vestígios de parte do Engenho dos Erasmos, hoje tombado e preservado, conforme imagem a seguir.



(Engenho dos Erasmos – tela de Carlos Fabra)
 
Depois de batido na Ilha de São Vicente Van Spilbergen prosseguiu sua derrota e pelo Estreito de Magalhães foi até o Oceano Pacífico no atual Chile e dentre outras ações acabou invadindo a ilha de Santa Maria, e a cidadezinha de Auroca, por duas vezes. Nesta expulsou a guarnição espanhola e ainda mandou incendiar todas as casas. Só por isto se vê qual era o real ânimo do chefe holandês. Na sequência, o mesmo fundeou em Valparaíso, onde segundo a história holandesa encontrou já todas as habitações incendiadas pelos espanhóis.  Foi ali, que 200 marinheiros e soldados batavos obtiveram grande vitória contra as tropas espanholas, fazendo nestas prisioneiros.

Em continuidade já em 17 de julho de 1615 Spielbergen entrou em combate com uma frota espanhola composta de oito galeões tripulados por 1.600 marujos e soldados, sob o comando do almirante espanhol Rodriguez de Mendoza, que ele derrotou, embora estivesse em inferioridade de embarcações. Este foi ainda o primeiro embate naval em que os holandeses tiveram uma vitória completa contra os espanhóis nessa parte do mundo. Essa derrota também custou à Espanha quatro grandes galeões e, entre os mortos, que se elevaram a cerca de mil, contavam-se os próprios almirante e vice-almirante hispânicos. Ai Spielbergen mostrou que era mesmo um valoroso lobo do mar.



(navio de guerra holandês disparando seus canhões – tela a óleo de Willem van de Velde II)
 
Comparando estas vitórias com os magros resultados obtidos na Ilha de São Vicente, de onde ele se retirou derrotado, percebe-se o valor daquela gente luso-brasileira, que incluía indígenas, todos eles pessoas simples e corajosas, que ali viviam enfrentando grandes dificuldades, e que esforçando-se ao máximo bateram a valorosa e bem treinada e armada tropa naval e terrestre dos holandeses.

 
Como se percebeu neste relato Joris Van Spilbergen era um hábil e corajoso comandante naval. Também ele mostrou em suas viagens a sua classe social e sua boa educação, pois gostava de viver bem a bordo, mantendo o seu navio bem provido de virtualhas e de bebidas, além de exigir que seus tripulantes fossem bem uniformizados. Mas, estranhamente morreu pobre na Holanda em 1620.



(Joris van Spilbergen, 1568 - 1620)

E a Vereinigda Oostindische Compagnie” (VOC), o que houve no curso do tempo com ela? Na verdade, seus ataques e pilhagens renderam-lhe grandes lucros durante bastante tempo. Em 1669, a VOC era a mais rica companhia privada do mundo, com mais de 150 navios mercantes, 40 navios de guerra, 50 000 funcionários, um exército privado de 10 000 soldados e uma distribuição de dividendos de 40%. Mas, as guerras encetadas contra os ingleses a enfraqueceram comercialmente, sendo que em 1796 ela foi estatizada e em 1803 acabou sendo fechada, já falida e com muitas dívidas.
 

Observando as suas atividades ao longo de tanto tempo notei que esta empresa, aproveitando-se da longa guerra hispano-holandesa, buscava ganhar bastante dinheiro, mediante ações bélicas em terra e no mar. Atacava e ocupava terras, guerreando seus anteriores ocupantes, batia-se contra naves de guerra e apresava ambarcações mercantes inimigas. Transformou uma guerra bilateral em fonte de ganhos próprios, recolhendo impostos ao estado batavo. Quanto a Joris Van Spilbergen o mesmo não era pirata, mas um mercenário naval, que colocando-se sobre as ordens daquela grande firma, exercia em especial a guerra de corso.


De tudo aquilo de então nesta cidade de Santos só restou passados tantos séculos fora as ruinas do velho engenho só mesmo a velha fortaleza aqui referida (situada no município de Guarujá), que continua preservada e cuja imagem atual  reproduzo a seguir:

 


(ao fundo o velho forte e navegando no estuário uma nave de guerra brasileira)




Fontes:

 
NETSCHER, P.M. OS HOLANDESES NO BRASIL. Tradução de Mário Sette. São Paulo: Companhia Editora Nacional. Edição 1942.

 


 

Coleção - Imagens Período Colonial - São Paulo. <http://www.sudoestesp.com.br/file/colecao-imagens-periodo-colonial-sao-paulo/667/> Acesso em: 04/02/2015.

 

Fórum de Numismática. http://www.forum-numismatica.com/viewtopic.php?f=63&t=85630 Acesso em: 16/02/2015.

 

Wikipédia, a enciclopédia livre. http://pt.wikipedia.org/wiki/Filipe_III_de_Espanha Acesso em: 03/03/2015.

 

Wikipédia, a enciclopédia livre. http://pt.wikipedia.org/wiki/Companhia_Holandesa_das_%C3%8Dndias_Orientais Acesso em: 10/03/2015.

 

Novo Milênio. Spielbergen atacou Santos em 1615. http://www.novomilenio.inf.br/santos/h0049a1.htm A matéria virtual contem trechos da obra História de Santos, de autoria de Francisco Martins dos Santos 2.ª edição, Santos-SP, 1986. Acesso em: 21/03/2015.

 

quinta-feira, 12 de março de 2015

Aspectos relevantes sobre Pedro Álvarez Cabral.

                                                   
(percurso integral da expedição cabralina)
 
 
Quem era Cabral? Era um fidalgo e um chefe militar, não um marujo ou navegante. A navegação da frota era cuidada por profissionais de origem italiana, especialmente contratados. Ali ele figurava como um diplomata e comandante militar, incumbido da suprema direção da expedição essencialmente política e comercial.
 
("O Descobrimento do Brasil" - Francisco Aurélio de Figueiredo e Melo)
 

Quando da arribada e estadia brasileira, um dos navios, que levava as provisões extras foi descarregado, sendo elas divididas entre os restantes. Já vazio seu comandante recebeu ordem para retornar a terra lusa dando conta da boa nova do descobrimento e ainda levar toda a correspondência elaborada para o reino.
 
Não apenas Caminha escreveu para o rei, mas tanto Cabral, como todos os comandantes o fizeram. Afinal, o monarca estava longe e era bom ser lembrado por ele, satisfazendo sua natural curiosidade. Na sua missiva, Caminha aproveitou e fez um pedido de graça para um de seus familiares, que fora apenado criminalmente.
 
(fragmento da carta de Caminha)
 
Todas as cartas chegaram ao seu real destinatário, mas delas só a de Caminha sobreviveu e figura hoje como a certidão de nascimento do Brasil. O que houve? Pensa-se, que elas foram perdidas quando do terremoto e voraz incêndio, que assolou Lisboa, em 1755, e que destruiu dentre muitos bens o precioso Arquivo Real com seus documentos relativos à exploração oceânica e muitos outros textos antigos.

Após os navios desferrarem, a expedição prosseguiu e os lusos desembarcaram na Índia, mas ali por razões outras entraram em conflito bélico com os autóctones. Caminha, como outros se armou e foi ao combate, nele perecendo.
 
Após muitas aventuras e mesmo bastante desfalcada em navios e homens, a frota de Cabral voltou dessa primeira viagem abarrotada com especiarias – canela, gengibre e, principalmente, pimenta. Financeiramente, o almirante conseguiu com isso o saldo mais positivo da missão. Na verdade, o valor da quantidade de especiarias transportadas foi suficiente para pagar três vezes o custo da viagem, que fora toda financiado por prestamistas e onzenários judeus.

Mesmo assim e posteriormente Cabral perdeu as boas graças reais, caindo em consequência no olvido da história. Tudo girou em torno do comando de uma segunda frota, que iria para a Índia, que Cabral entendia lhe caber com exclusividade, preferindo o rei que o comando fosse dividido entre dois chefes, no que resultou afinal impor o monarca a sua vontade ao descontente Cabral, cabendo a chefia da nova expedição a Vasco da Gama, a qual partiu em 1502, ficando Cabral em Portugal.
 
Para sua sorte ele era a cabeça de sua família (herdara todos os bens desta por morte do irmão mais velho) e ainda depois se casou com uma jovem, que vinha da família mais rica de Portugal. Depois dos sucessos referidos, recolheu-se em suas terras de Santarém, tendo falecido provavelmente em 1520. Como era abastado deve ter vivido muito bem com seus exclusivos recursos, mesmo sem os favores reais (vejam abaixo a imagem de sua casa).
 
(Castelo de Belmonte da família de Cabral - imagem atual)
 
Sua sepultura esteve perdida durante os séculos XVII e XVIII, tendo sido encontrada em 1839 pelo historiador brasileiro, Visconde de Porto Seguro, na sacristia da Igreja de Nossa Senhora da Graça, em Santarém. Em 1903,  trouxeram para o Brasil parte dos restos mortais de Cabral, que foram depositados em uma urna na chamada Antiga Sé do Rio de Janeiro, ou seja, na igreja abaixo mencionada.
 
(lápide na Igreja Nossa Senhora do Carmo no Rio de Janeiro)

 
E o pedido de Caminha ao rei. Este nada fizera ao receber a carta, mas sabendo depois que o letrado caíra combatendo pela causa real se apiedou do desastrado genro dele, Jorge de Osório e o beneficiou revogando o seu exílio.

Acho que a História olvida quase sempre o lado pessoal de seus principais atores, limitando-se ao papel por eles desempenhado nos momentos por ela retratados. E depois os defenestra sem cerimônias! Como não sou historiador, mas apenas um amador e um diletante, que a aprecia, busco ainda este “plus”, que espero venha contentar a outrem, que pense também assim.
 
Recomendando em especial a atenção de todos a imagem ilustrativa de toda a expedição, que é muito expressiva pelas grandes distâncias percorridas em precárias embarcações de madeira com propulsão à vela e ainda enfrentando a fúria dos elementos naturais.
 
A memória de Cabral é destacada em Portugal pela estátua a seguir reproduzida:

                                                  
(estátua lusitana de Cabral)

 

E ainda nesta outra estátua dele, aqui no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro:





(estátua do descobridor no Largo da Glória - RJ)

Bom se explicar, que discorrer sobre Cabral em tese nada diz respeito a guerras navais na América do Sul, que é o propósito deste blog. Mas, sem aquele homem e seu trabalho nós não teríamos nascido para a civilização da forma ocorrida no passado. Impossível, esquece-lo; dai estas duas postagens sobre ele, sua navegação e um pouco sobre a sua vida.


 
Fonte:

Veja na História: Diplomacia do Canhão. http://veja.abril.com.br/historia/descobrimento/pedro-alvares-cabral.shtml . Acesso em: 25/02/2015.
 
ABRANCHES VIOTTI, Frederico R. de . A nobre e heróica estirpe de nosso Descobridor. Revista Catolicismo. http://catolicismo.com.br/materia/materia.cfm?idmat=A6439B0D-A374-53EE-7EA97F800AC5AFF8&mes=Mar%C3%A7o2000 . Acesso em: 16/02/2015.
 
Wikipédia, a enciclopédia livre.
Acesso em: 16/02/2015.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

22 de abril de 1500 – foi ai que começou tudo para o Brasil.

                                                     
(Pedro Alvarez Cabral)
 
Realmente, Cabral não imaginaria naquele dia, que tanta coisa resultasse de sua viagem. Estavam ali na Bahia doze embarcações, das treze originais e a marujada se desdobrava nas fainas de bordo, feitas com cautela, pelo total desconhecimento do local e de suas águas.

Para ele tudo decorrera de uma deliberação do Rei D. Manuel I, que o mandara liderar aquela frota, não apenas por ser filho de Fernão Cabral, alcaide-mor de Belmonte, mas em especial pelos laços de amizade e confiança mútua, que os ligavam ao monarca.
 
(Rei D. Manuel I)

Ainda estavam frescas na sua memória a missa, realizada no Mosteiro de Belém, presidida pelo bispo de Ceuta, D. Diogo de Ortiz, em pessoa, onde este benzeu uma bandeira com as armas do Reino e a entregou em suas mãos, despedindo-se o rei do fidalgo e dos restantes capitães. Estavam então todos os presentes de luto, pois se muitos partiam, bem poucos retornavam à pátria.

A 9 de Março de 1500 zarpou a grande frota do Restelo, com o objetivo formal de novamente tentar atar relações comerciais com os portos índicos de Calecute, Cananor e Sofala, uma vez que Vasco da Gama havia sido na primeira tentativa ridicularizado pelos governantes locais dadas as péssimas condições, em que os portugueses se encontravam no seu desembarque.

Pelo dia 14 do mesmo mês já se encontrava a frota nas Canárias e no dia 22 chegava a Cabo Verde. No dia seguinte desapareceu misteriosamente o navio de Vasco de Ataíde (o 13.°).
 
                                               
(Esquadra portuguesa de Pedro Álvares Cabral)

No dia 22 de Abril, de modo, que não se sabe com certeza, se foi acidental ou já premeditado, avistou-se “terra chã, com grandes arvoredos”. Ao grande monte, Cabral batizou de Monte Pascoal e à terra deu o nome de Ilha de Vera Cruz, hoje no Estado brasileiro da Bahia.

Aproveitando os ventos alísios, a esquadra bordejou a costa baiana em direção ao norte à procura de uma enseada, achada afinal pouco antes do pôr-do-sol do dia 24 de abril, em local que viria a ser chamado Baía Cabrália.
 
 

                                                      
(desembarque de Cabral no Brasil - tela de Oscar Pereira da Silva)


 
 
Ali permaneceram até 02 de maio, quando rumaram para as Índias, cumprindo finalmente seu objetivo formal de viagem, deixando dois degredados e dois grumetes que desertaram.
 
                                                
(Primeira Missa do Brasil - tela de Victor Meirelles)

Mal sabia o almirante, que embora comercialmente a expedição marítima tenha sido um sucesso, a sua viagem, no aspecto diplomático, iria se mostrar um real fracasso, sendo que Portugal ainda demoraria mais algumas décadas até conseguir uma relação comercial com aqueles povos indianos.

Tais, em poucas linhas, a grande viagem para a terra ignota, que parecia ser uma ilha, mas que era na realidade parte de um imenso continente. Dela decorreram 514 anos até hoje. E tudo aquilo que Cabral não pudera imaginar veio aqui a acontecer, sendo nós hoje o resultado de inumeráveis lutas, com grandes vitórias e poucas derrotas, todas esquecidas em livros empoeirados. Mas, se muitos não souberam, ou não quiseram saber, eu as guardei em suas linhas gerais e ora aqui, ora ali, as relembro. A começar pela imagem aqui reproduzida, que é a mesma das notas de um mil cruzeiros, que circularam nos anos sessenta do século passado e que eram impressas na América do Norte na empresa American Bank Note Company. Havendo ainda outras, estando todas no domínio público.

Inseri este texto aqui, pois a chegada dos navegantes lusos marcou o início da civilização para a terra que nos abriga com tanta generosidade, conforme destaquei na imagem inicial.


 
Fonte:
Wikipédia, a enciclopédia livre
http://pt.wikipedia.org/wiki/Descoberta_do_Brasil
Acesso em: 22/04/2009.
 
COUTO, José Ferrer de. Historia de la Marina Real Española. Madrid: 1849 (litogravura da esquadra cabralina).