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domingo, 22 de março de 2015

Corsários holandeses atacam Santos e São Vicente no século XVII.


(Le portrait de Capo de St. Vincent en Brésil- estampa de Miroie Oest et West Indical, publicada em 1621 por Jan Janez, editor de Amsterdam)

 
Neste desenho do século XVII se resumem com escassa precisão e diversos erros palpáveis o cenário das ações desenvolvidas por corsários holandeses contra as vilas de São Vicente e Santos, sitas na Ilha de São Vicente, em 1615, e a reação a eles opostas por seus habitantes.

Mas, é bom antes de tudo se começar rememorando o passado distante, lembrando-se que os holandeses participaram do empreendimento açucareiro no Brasil, oriundo do reino de Portugal, desde os seus primórdios. Mas, em 1580, Felipe II, rei da Espanha, ascendeu ao trono português, sendo por sua morte sucedido no trono luso por mais dois reis hispânicos. Foi a chamada União Ibérica, que perdurou até 1640. Totalmente impedidos durante ela de continuar a participar dos lucros da indústria açucareira brasileira, por serem ferrenhos inimigos dos espanhóis, os batavos partiram para o uso da força, o que explica este feroz episódio, que tanto traumatizou aos colonizadores da Ilha de São Vicente.

Voltando agora aos fatos objetos desta devo destacar a origem da frota atacante, que navegava sob a bandeira da “Vereinigda Oostindische Compagnie” (VOC), uma entidade tão importante, que merece algumas explicações sobre ela..

A VOC (Vereinigda Oostindische Compagnie), ou Companhia das Índias Orientais,  surgiu em 1602 pela fusão de várias firmas de navegação holandesas, formando a primeira empresa multinacional, de responsabilidade limitada e de capital aberto que se teve notícias.

 
 
(bandeira da Companhia Neerlandesa das Índias Orientais)


Receberam do estado holandes a liberdade de contratar soldados, construir embarcações de guerra e emitir moeda, tudo em nome dos Estados Gerais. Ao contrário de sua irmã, a GWC (Companhia das Índias Ocidentais), que encontrou a falência nas lutas dentro do Brasil, a VOC prosperou nas terras do Oriente, e lançou as bases do colonialismo holandês naquela parte do globo. A forma capitalista da empresa lhe deu um grande impulso, e os lucros obtidos compensavam as guerras com portugueses, ingleses e espanhóis no Oriente, de forma que a Companhia remeteu a Holanda grandes somas nas décadas que se seguiram à sua criação, e também expandiu o mundo colonial holandês de forma muito significativa na conquista territorial.
 
 
E quem era o comandante corsário desta importante flotilha de guerra? Foi Joris Van Spilbergen, um duro combatente naval, que alugando seus préstimos navegou em muitas águas a partir de 1596, tendo estado presente em expedições armadas na África, na Ásia, na Espanha (em Gibraltar então espanhola), na América espanhola e portuguesa (México, Chile, Brasil) e até nas Filipinas.
 

Em agosto de 1614, Van Spilbergen foi enviado pela Companhia das Índias Orientais (VOC)  com o propósito de procurar um caminho mais curto para as Molucas, pelo estreito de Magalhães, e teve sob suas ordens seis navios: — o Groote Zon, o Groote Maan, o Jager e o Meeuw, da Câmara de Amsterdã; o Eolus, da  Zelândia e o Morgenster, de Roterdã. Como já disse a VOC era privada, mas tinha atuação internacional, e gozava de prerrogativas excepcionais concedidas pelo governo holandês já antes explicadas.
 
(embarcação holandesa da VOC)


Van Spilbergen durante este cruzeiro em suas fainas marítimas acabou incursionando por águas brasileiras e nelas apresou uma caravela portuguesa com boa carga (provavelmente esta era a sétima embarcação que aparece no desenho), dirigindo-se então a ilha de São Vicente. Naquela época, Portugal, do qual dependia o Brasil, ainda era governado pelo rei espanhol, Filipe III, persistindo ainda conflitos armados entre Espanha e Holanda, razão do ataque não provocada às pequenas vilas luso-brasileiras.

(Filipe III, rei da Espanha e de Portugal em óleo de Pedro Antonio Vidal)

Sobre sua incursão existe uma versão holandesa, totalmente facciosa, pela qual os navegantes batavos tinham vindo em paz e “foram recebidos pelos portugueses de forma hostil, e (com eles) falharam todas as tentativas para estabelecer relações comerciais, razão porque os holandeses abriram de novo suas velas deixando aquelas regiões inospitaleiras”. A verdade, porém, é que a sua inusitada visita e estadia ai foram marcadas pelo derramamento de sangue, destruições e saques.

De qualquer forma, como sobre tudo aquilo só exista aquele impreciso desenho, eu o reproduzo novamente em outra imagem, desta vez colorida, para assim melhor fazer diversos comentários.


(a mesma gravura colorida digitalmente por Victor Hugo Mori, IPHAN, SP)


Neste já se veem sete embarcações holandesas, sendo cinco agrupadas e duas deslocadas, fora um navio português incendiado. Uma delas, a esquerda e acima (Meeuw ou Gaivota) vigia o porto de São Vicente, enquanto a direita e abaixo no canal está outra (Jager ou Caçador) a certa distância de uma fortaleza, cujo fogo os seus escaleres de reconhecimento não ousaram enfrentar. Logicamente, esta é a fortaleza da Barra Grande, sobre a qual depois irei discorrer. Havendo ainda uma incursão em outros escaleres inimigos em demanda a vila de Santos.

As duas vilas de Sanctus e St. Vincent têm portas, estacada, igrejas, edifícios altos, sendo a segunda maior do que a primeira. Notam-se em diferentes pontos do litoral numerosas tropas de índios e brancos armados, à espera do desembarque dos batavos.

A ilha de Santo Amaro não chega a encobrir a entrada da baía e não apresenta uma larga costa oceânica, como de fato acontece. Consequentemente, o canal da Bertioga sai dentro da baía, e leva o autor do desenho a alguns enganos. O principal deles é localizar a vila de Santos na ilha de Santo Amaro, quando na realidade ela está sobre a margem direita, na ilha de São Vicente, bem em frente ao estuário existente entre esta e a ilha de Santo Amaro.

Para melhor entender a realidade é bom se examinar o mapa abaixo, que é atual, mas mostra as duas ilhas e o continente, sem esquecer Santos, São Vicente e Bertioga, como realmente eram e são até hoje.


(parte do litoral paulista em desenho atual)


Veem-se ainda outras cenas importantes, a saber: o incêndio de um engenho (de Jerônimo Leitão), de uma igreja ("Santa Maria das Naus" ou "Nossa Senhora das Naus") e de um depósito de açúcar (trapiche do Engenho de Jerônimo Leitão). Fora outras também importantes, como a cena de um desembarque batavo e uma outra de uma marcha deles em formatura. Fora outras de pouca importância: um índio balançando-se numa rede, e mais dois índios nus, logicamente algo que atraiu a curiosidade do desenhista. Sobre aquele engenho, seu trapiche e a igreja então destruídos, destaco que o primeiro chamava-se Engenho Nossa Senhora das Naus, realmente era de Jerônimo Leitão e fora construído junto ao Mar Pequeno, aonde hoje se situam as ruínas do chamado Porto das Naus, tudo isto em São Vicente. Tão isolados foram fácil presa dos irascíveis holandeses.
Diante deste quadro percebe-se que as coisas foram bem duras na Ilha de São Vicente. Mas, seus habitantes não se acovardaram e reagiram o melhor que puderam aos invasores. Era então Capitão-mor da Capitania, Paulo da Rocha Siqueira, residente em Santos, e foi ele com os principais homens da terra, quem iniciaram a resistência. Amador Bueno da Ribeira, aquele que bem depois não quis ser rei paulistano, sabendo do que ocorria na baixada desceu de São Paulo, aonde vivia, com um corpo de paulistas e de índios, armados à sua custa, e que fora engrossado por outros paulistas eminentes e seus colaboradores, em socorro das vilas ilhoas. Todos eles unidos corajosamente salvaram as duas povoações, após rudes combates na faixa praiana, com o apoio dos canhões da Fortaleza da Barra Grande e de algumas peças de artilharia postadas na praia do Embaré. Diante da forte reação os invasores desistiram de seus maus intentos, retiraram-se para seus navios e neles partiram, para nunca mais retornar. Graças a Deus!

Durante os fatos teve importante papel defensivo a Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande, cujos fogos causaram mortes e danos aos invasores, auxiliando muito aos demais combatentes luso-brasileiros.

 



(Fortaleza da Barra Grande – desenho de Lauro Ribeiro da Sila – RIBS)


Esta, fora erguida em 1584, por ordem do rei Felipe II, na embocadura do estuário de Santos, conforme projeto do arquiteto militar, Giovanni Battista Antonelli. Ela foi então assentada sobre um esporão rochoso, coberto pela Mata Atlântica, que se projetava sobre o canal de acesso ao Porto de Santos. E foi levantada quando esta  necessidade se tornou patente após a ação militar vitoriosa de Andrés Higino, da esquadra de Valdez, contra os navios ingleses de Edward Fenton, em 1583, algo de que já tratei anteriormente neste blog.

Como agradecimento pelo seu papel nas pugnas então ocorridas, Amador Bueno da Ribeira tornou-se logo depois Capitão-mor de São Vicente, uma grande honra, que ele aceitou, mas sem aceitar receber por isto qualquer remuneração, algo que ele próprio impôs espontaneamente.

Não custa se dizer, que Santos e São Vicente, dependiam especialmente naquela época da exploração do açúcar, que era cultivado em Cubatão e no sitio São Jorge (neste surgiu muito depois um dos bairros santistas, a Vila São Jorge), aonde havia um dos diversos engenhos, chamado dos Erasmos, fora diversos outros em toda a área, sendo depois o açúcar neles produzido exportado através do pequeno porto santista. Criava-se também gado, curtindo-se seus couros, com isto garantindo-se alimentação e rendas. Os indígenas assimilados também trabalhavam e recebiam em pagamento quinquilharias havendo então pequeno número de escravos negros. As duas vilas eram fortificadas para preserva-las dos índios selvagens e dos corsários, contando até com pequena artilharia para tal. Isto foi muito bom, pois senão elas teriam sido arrasadas pelo feroz Spielbergen. Daquela época distante só restaram vestígios de parte do Engenho dos Erasmos, hoje tombado e preservado, conforme imagem a seguir.



(Engenho dos Erasmos – tela de Carlos Fabra)
 
Depois de batido na Ilha de São Vicente Van Spilbergen prosseguiu sua derrota e pelo Estreito de Magalhães foi até o Oceano Pacífico no atual Chile e dentre outras ações acabou invadindo a ilha de Santa Maria, e a cidadezinha de Auroca, por duas vezes. Nesta expulsou a guarnição espanhola e ainda mandou incendiar todas as casas. Só por isto se vê qual era o real ânimo do chefe holandês. Na sequência, o mesmo fundeou em Valparaíso, onde segundo a história holandesa encontrou já todas as habitações incendiadas pelos espanhóis.  Foi ali, que 200 marinheiros e soldados batavos obtiveram grande vitória contra as tropas espanholas, fazendo nestas prisioneiros.

Em continuidade já em 17 de julho de 1615 Spielbergen entrou em combate com uma frota espanhola composta de oito galeões tripulados por 1.600 marujos e soldados, sob o comando do almirante espanhol Rodriguez de Mendoza, que ele derrotou, embora estivesse em inferioridade de embarcações. Este foi ainda o primeiro embate naval em que os holandeses tiveram uma vitória completa contra os espanhóis nessa parte do mundo. Essa derrota também custou à Espanha quatro grandes galeões e, entre os mortos, que se elevaram a cerca de mil, contavam-se os próprios almirante e vice-almirante hispânicos. Ai Spielbergen mostrou que era mesmo um valoroso lobo do mar.



(navio de guerra holandês disparando seus canhões – tela a óleo de Willem van de Velde II)
 
Comparando estas vitórias com os magros resultados obtidos na Ilha de São Vicente, de onde ele se retirou derrotado, percebe-se o valor daquela gente luso-brasileira, que incluía indígenas, todos eles pessoas simples e corajosas, que ali viviam enfrentando grandes dificuldades, e que esforçando-se ao máximo bateram a valorosa e bem treinada e armada tropa naval e terrestre dos holandeses.

 
Como se percebeu neste relato Joris Van Spilbergen era um hábil e corajoso comandante naval. Também ele mostrou em suas viagens a sua classe social e sua boa educação, pois gostava de viver bem a bordo, mantendo o seu navio bem provido de virtualhas e de bebidas, além de exigir que seus tripulantes fossem bem uniformizados. Mas, estranhamente morreu pobre na Holanda em 1620.



(Joris van Spilbergen, 1568 - 1620)

E a Vereinigda Oostindische Compagnie” (VOC), o que houve no curso do tempo com ela? Na verdade, seus ataques e pilhagens renderam-lhe grandes lucros durante bastante tempo. Em 1669, a VOC era a mais rica companhia privada do mundo, com mais de 150 navios mercantes, 40 navios de guerra, 50 000 funcionários, um exército privado de 10 000 soldados e uma distribuição de dividendos de 40%. Mas, as guerras encetadas contra os ingleses a enfraqueceram comercialmente, sendo que em 1796 ela foi estatizada e em 1803 acabou sendo fechada, já falida e com muitas dívidas.
 

Observando as suas atividades ao longo de tanto tempo notei que esta empresa, aproveitando-se da longa guerra hispano-holandesa, buscava ganhar bastante dinheiro, mediante ações bélicas em terra e no mar. Atacava e ocupava terras, guerreando seus anteriores ocupantes, batia-se contra naves de guerra e apresava ambarcações mercantes inimigas. Transformou uma guerra bilateral em fonte de ganhos próprios, recolhendo impostos ao estado batavo. Quanto a Joris Van Spilbergen o mesmo não era pirata, mas um mercenário naval, que colocando-se sobre as ordens daquela grande firma, exercia em especial a guerra de corso.


De tudo aquilo de então nesta cidade de Santos só restou passados tantos séculos fora as ruinas do velho engenho só mesmo a velha fortaleza aqui referida (situada no município de Guarujá), que continua preservada e cuja imagem atual  reproduzo a seguir:

 


(ao fundo o velho forte e navegando no estuário uma nave de guerra brasileira)




Fontes:

 
NETSCHER, P.M. OS HOLANDESES NO BRASIL. Tradução de Mário Sette. São Paulo: Companhia Editora Nacional. Edição 1942.

 


 

Coleção - Imagens Período Colonial - São Paulo. <http://www.sudoestesp.com.br/file/colecao-imagens-periodo-colonial-sao-paulo/667/> Acesso em: 04/02/2015.

 

Fórum de Numismática. http://www.forum-numismatica.com/viewtopic.php?f=63&t=85630 Acesso em: 16/02/2015.

 

Wikipédia, a enciclopédia livre. http://pt.wikipedia.org/wiki/Filipe_III_de_Espanha Acesso em: 03/03/2015.

 

Wikipédia, a enciclopédia livre. http://pt.wikipedia.org/wiki/Companhia_Holandesa_das_%C3%8Dndias_Orientais Acesso em: 10/03/2015.

 

Novo Milênio. Spielbergen atacou Santos em 1615. http://www.novomilenio.inf.br/santos/h0049a1.htm A matéria virtual contem trechos da obra História de Santos, de autoria de Francisco Martins dos Santos 2.ª edição, Santos-SP, 1986. Acesso em: 21/03/2015.

 

quinta-feira, 12 de março de 2015

Aspectos relevantes sobre Pedro Álvarez Cabral.

                                                   
(percurso integral da expedição cabralina)
 
 
Quem era Cabral? Era um fidalgo e um chefe militar, não um marujo ou navegante. A navegação da frota era cuidada por profissionais de origem italiana, especialmente contratados. Ali ele figurava como um diplomata e comandante militar, incumbido da suprema direção da expedição essencialmente política e comercial.
 
("O Descobrimento do Brasil" - Francisco Aurélio de Figueiredo e Melo)
 

Quando da arribada e estadia brasileira, um dos navios, que levava as provisões extras foi descarregado, sendo elas divididas entre os restantes. Já vazio seu comandante recebeu ordem para retornar a terra lusa dando conta da boa nova do descobrimento e ainda levar toda a correspondência elaborada para o reino.
 
Não apenas Caminha escreveu para o rei, mas tanto Cabral, como todos os comandantes o fizeram. Afinal, o monarca estava longe e era bom ser lembrado por ele, satisfazendo sua natural curiosidade. Na sua missiva, Caminha aproveitou e fez um pedido de graça para um de seus familiares, que fora apenado criminalmente.
 
(fragmento da carta de Caminha)
 
Todas as cartas chegaram ao seu real destinatário, mas delas só a de Caminha sobreviveu e figura hoje como a certidão de nascimento do Brasil. O que houve? Pensa-se, que elas foram perdidas quando do terremoto e voraz incêndio, que assolou Lisboa, em 1755, e que destruiu dentre muitos bens o precioso Arquivo Real com seus documentos relativos à exploração oceânica e muitos outros textos antigos.

Após os navios desferrarem, a expedição prosseguiu e os lusos desembarcaram na Índia, mas ali por razões outras entraram em conflito bélico com os autóctones. Caminha, como outros se armou e foi ao combate, nele perecendo.
 
Após muitas aventuras e mesmo bastante desfalcada em navios e homens, a frota de Cabral voltou dessa primeira viagem abarrotada com especiarias – canela, gengibre e, principalmente, pimenta. Financeiramente, o almirante conseguiu com isso o saldo mais positivo da missão. Na verdade, o valor da quantidade de especiarias transportadas foi suficiente para pagar três vezes o custo da viagem, que fora toda financiado por prestamistas e onzenários judeus.

Mesmo assim e posteriormente Cabral perdeu as boas graças reais, caindo em consequência no olvido da história. Tudo girou em torno do comando de uma segunda frota, que iria para a Índia, que Cabral entendia lhe caber com exclusividade, preferindo o rei que o comando fosse dividido entre dois chefes, no que resultou afinal impor o monarca a sua vontade ao descontente Cabral, cabendo a chefia da nova expedição a Vasco da Gama, a qual partiu em 1502, ficando Cabral em Portugal.
 
Para sua sorte ele era a cabeça de sua família (herdara todos os bens desta por morte do irmão mais velho) e ainda depois se casou com uma jovem, que vinha da família mais rica de Portugal. Depois dos sucessos referidos, recolheu-se em suas terras de Santarém, tendo falecido provavelmente em 1520. Como era abastado deve ter vivido muito bem com seus exclusivos recursos, mesmo sem os favores reais (vejam abaixo a imagem de sua casa).
 
(Castelo de Belmonte da família de Cabral - imagem atual)
 
Sua sepultura esteve perdida durante os séculos XVII e XVIII, tendo sido encontrada em 1839 pelo historiador brasileiro, Visconde de Porto Seguro, na sacristia da Igreja de Nossa Senhora da Graça, em Santarém. Em 1903,  trouxeram para o Brasil parte dos restos mortais de Cabral, que foram depositados em uma urna na chamada Antiga Sé do Rio de Janeiro, ou seja, na igreja abaixo mencionada.
 
(lápide na Igreja Nossa Senhora do Carmo no Rio de Janeiro)

 
E o pedido de Caminha ao rei. Este nada fizera ao receber a carta, mas sabendo depois que o letrado caíra combatendo pela causa real se apiedou do desastrado genro dele, Jorge de Osório e o beneficiou revogando o seu exílio.

Acho que a História olvida quase sempre o lado pessoal de seus principais atores, limitando-se ao papel por eles desempenhado nos momentos por ela retratados. E depois os defenestra sem cerimônias! Como não sou historiador, mas apenas um amador e um diletante, que a aprecia, busco ainda este “plus”, que espero venha contentar a outrem, que pense também assim.
 
Recomendando em especial a atenção de todos a imagem ilustrativa de toda a expedição, que é muito expressiva pelas grandes distâncias percorridas em precárias embarcações de madeira com propulsão à vela e ainda enfrentando a fúria dos elementos naturais.
 
A memória de Cabral é destacada em Portugal pela estátua a seguir reproduzida:

                                                  
(estátua lusitana de Cabral)

 

E ainda nesta outra estátua dele, aqui no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro:





(estátua do descobridor no Largo da Glória - RJ)

Bom se explicar, que discorrer sobre Cabral em tese nada diz respeito a guerras navais na América do Sul, que é o propósito deste blog. Mas, sem aquele homem e seu trabalho nós não teríamos nascido para a civilização da forma ocorrida no passado. Impossível, esquece-lo; dai estas duas postagens sobre ele, sua navegação e um pouco sobre a sua vida.


 
Fonte:

Veja na História: Diplomacia do Canhão. http://veja.abril.com.br/historia/descobrimento/pedro-alvares-cabral.shtml . Acesso em: 25/02/2015.
 
ABRANCHES VIOTTI, Frederico R. de . A nobre e heróica estirpe de nosso Descobridor. Revista Catolicismo. http://catolicismo.com.br/materia/materia.cfm?idmat=A6439B0D-A374-53EE-7EA97F800AC5AFF8&mes=Mar%C3%A7o2000 . Acesso em: 16/02/2015.
 
Wikipédia, a enciclopédia livre.
Acesso em: 16/02/2015.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

22 de abril de 1500 – foi ai que começou tudo para o Brasil.

                                                     
(Pedro Alvarez Cabral)
 
Realmente, Cabral não imaginaria naquele dia, que tanta coisa resultasse de sua viagem. Estavam ali na Bahia doze embarcações, das treze originais e a marujada se desdobrava nas fainas de bordo, feitas com cautela, pelo total desconhecimento do local e de suas águas.

Para ele tudo decorrera de uma deliberação do Rei D. Manuel I, que o mandara liderar aquela frota, não apenas por ser filho de Fernão Cabral, alcaide-mor de Belmonte, mas em especial pelos laços de amizade e confiança mútua, que os ligavam ao monarca.
 
(Rei D. Manuel I)

Ainda estavam frescas na sua memória a missa, realizada no Mosteiro de Belém, presidida pelo bispo de Ceuta, D. Diogo de Ortiz, em pessoa, onde este benzeu uma bandeira com as armas do Reino e a entregou em suas mãos, despedindo-se o rei do fidalgo e dos restantes capitães. Estavam então todos os presentes de luto, pois se muitos partiam, bem poucos retornavam à pátria.

A 9 de Março de 1500 zarpou a grande frota do Restelo, com o objetivo formal de novamente tentar atar relações comerciais com os portos índicos de Calecute, Cananor e Sofala, uma vez que Vasco da Gama havia sido na primeira tentativa ridicularizado pelos governantes locais dadas as péssimas condições, em que os portugueses se encontravam no seu desembarque.

Pelo dia 14 do mesmo mês já se encontrava a frota nas Canárias e no dia 22 chegava a Cabo Verde. No dia seguinte desapareceu misteriosamente o navio de Vasco de Ataíde (o 13.°).
 
                                               
(Esquadra portuguesa de Pedro Álvares Cabral)

No dia 22 de Abril, de modo, que não se sabe com certeza, se foi acidental ou já premeditado, avistou-se “terra chã, com grandes arvoredos”. Ao grande monte, Cabral batizou de Monte Pascoal e à terra deu o nome de Ilha de Vera Cruz, hoje no Estado brasileiro da Bahia.

Aproveitando os ventos alísios, a esquadra bordejou a costa baiana em direção ao norte à procura de uma enseada, achada afinal pouco antes do pôr-do-sol do dia 24 de abril, em local que viria a ser chamado Baía Cabrália.
 
 

                                                      
(desembarque de Cabral no Brasil - tela de Oscar Pereira da Silva)


 
 
Ali permaneceram até 02 de maio, quando rumaram para as Índias, cumprindo finalmente seu objetivo formal de viagem, deixando dois degredados e dois grumetes que desertaram.
 
                                                
(Primeira Missa do Brasil - tela de Victor Meirelles)

Mal sabia o almirante, que embora comercialmente a expedição marítima tenha sido um sucesso, a sua viagem, no aspecto diplomático, iria se mostrar um real fracasso, sendo que Portugal ainda demoraria mais algumas décadas até conseguir uma relação comercial com aqueles povos indianos.

Tais, em poucas linhas, a grande viagem para a terra ignota, que parecia ser uma ilha, mas que era na realidade parte de um imenso continente. Dela decorreram 514 anos até hoje. E tudo aquilo que Cabral não pudera imaginar veio aqui a acontecer, sendo nós hoje o resultado de inumeráveis lutas, com grandes vitórias e poucas derrotas, todas esquecidas em livros empoeirados. Mas, se muitos não souberam, ou não quiseram saber, eu as guardei em suas linhas gerais e ora aqui, ora ali, as relembro. A começar pela imagem aqui reproduzida, que é a mesma das notas de um mil cruzeiros, que circularam nos anos sessenta do século passado e que eram impressas na América do Norte na empresa American Bank Note Company. Havendo ainda outras, estando todas no domínio público.

Inseri este texto aqui, pois a chegada dos navegantes lusos marcou o início da civilização para a terra que nos abriga com tanta generosidade, conforme destaquei na imagem inicial.


 
Fonte:
Wikipédia, a enciclopédia livre
http://pt.wikipedia.org/wiki/Descoberta_do_Brasil
Acesso em: 22/04/2009.
 
COUTO, José Ferrer de. Historia de la Marina Real Española. Madrid: 1849 (litogravura da esquadra cabralina).

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

A Batalha Naval do Riachuelo.

Breve introdução:



(imagem de satélite atual do local da batalha do Riachuelo)
 
Casualmente obtive este texto na WEB, aonde ele foi apresentado da seguinte forma:
 
"Foi no distante junho de 1918, mais de cinqüenta anos da monumental batalha, que o almanaque "Eu sei tudo", numa sugestiva seção intitulada "PAGINAS ESQUECIDAS", brindou os seus inúmeros leitores com uma matéria muito bonita e comovente, sob o titulo "COMBATE DO RIACHUELO", do Dr. Pires de Almeida. Hoje, após mais de 80 anos da publicação e 130 anos da batalha, o Almanaque Virtual procura preservar esse maravilhoso feito desses bravos soldados, reeditando novamente essa matéria, na esperança de não ter sido em vão os esforços dos editores do almanaque "Eu sei tudo", não tornando essa página da nossa história, em uma das PAGINAS ESQUECIDAS".

Ao final da matéria estão os créditos correspondentes. E a seguir a matéria propriamente dita:


"COMBATE DO RIACHUELO"



(Batalha Naval do Riachuelo - tela de Eduardo de Martino)
                                                                         
                                                     

"Em fins de abril, de 1865, duas divisões da esquadra brasileira subiram o rio Paraná, indo fundear em Bela Vista. Os paraguaios, tendo invadido o território correntino (Corrientes) com poderosa força, ao mando do general Robles, agora reforçados por mais 3.000 homens, apoderam-se da cidade, depois de haverem tomado de assalto dois vapores argentinos, e juntam-se ás tropas ali existentes, convertendo a indefesa cidade em poderosa praça de guerra, com um efetivo de 27.000 homens e 60 bocas de fogo.
 
Simultaneamente, outro exercito paraguaio ameaça invadir as fronteiras brasileiras pela lado de Itapua, ao mando do tenente coronel Estigarribia.
 
Sem que encontrassem embaraços á sua passagem, os paraguaios, com forças sempre numericamente superiores, dividem-se e subdividem-se, descendo a melhor parte até Riachuelo, em cujas barrancas se fortificam.; não obstante porém esse aparato todo, inesperadamente contra-marcham, obrigando Paunero, que ia ao seu encontro, a reembarcar suas tropas, vindo abarracar-se em Rincon del Soto.
 
Aquele simulacro de retirada não passara despercebido ao valente cabo de guerra argentino, que, sem ter receio do imprevisto, de plano com com o chefe Barroso, que o auxilia na temerária expedição, embarca novamente suas forças e, surgindo na capital correntina a 25 de Maio (quinta feira), ataca-a e retoma-a, estando a cidade defendida por 2.000 homens, ao mando de Martinez.
 
Os aliados tiveram fora de combate, entre mortos e feridos, 200 argentinos e 21 brasileiros; o inimigo 452 mortos fora 66 feridos e 86 prisioneiros; e , além de armamento e munições em considerável quantidade, tomamos-lhe mais três bocas de fogo, duas caixas de guerra e uma bandeira. Obtida esta vitória, Paunero, certo de que Robles, vendo assim surpreendida sua  linha de retirada, o atacaria com 25.000 homens sob seu comando, embarca as forças argentinas e brasileiras e desce, indo acampar no Rincon.

E com aquele predisposto, Lopez embarca precipitadamente no Taquari, a 8 de junho de 1865, uma quinta feira, com direção a Humaitá, e assiste em pessoa aos preparativos para a planejada expedição, marcando o dia 11, domingo, irrevogavelmente para o ataque e abordagem á esquadra, que ele supunha desprevenida e desguarnecida.

Aparentemente calmo, Lopez traia-se a cada instante, desenvolvendo frenética atividade para esconder os revezes que acabava de sofrer, e agora, sugestionado pelo feroz Diaz, resolve o ousado plano de um formidável combate naval, de que lhe adviriam vantagens imaginarias sobre os exércitos aliados.

Para atenuar, perante os seus soldados, o desastre de Corrientes, responsabiliza pela derrota o chefe Martinez, que faz passar pelas armas, não obstante ter-se valentemente  batido. Apenas chegado ao forte de Humaitá, Solano Lopez, em veemente alocução, concita os oficiais e soldados do Sexto batalhão de infantaria naval, o mais valente dos seus batalhões, a se baterem sem tréguas; e á distribuição de sabres e machadinhas recomendou-lhes que lhe levassem prisioneiros vivos, ao que eles responderam que pouco lhes preocupavam prisioneiros, prometendo afirmativamente, que voltariam vitoriosos, rebocando os nossos vasos de guerra.

A despeito de tão eloqüente entusiasmo, Solano Lopez, como se não confiasse bastante no plano traçado pelo general Diaz, reforçou-o, mandando o coronel de artilharia Bruguez assestar uma bateria de 32 canhões, na margem direita da embocadura do Riachuelo; este, por iniciativa própria, estendeu no local denominado Barrancas, protegido por um montículo, poderoso contingente de infantaria, destinado não só a socorrer a abordagem sob o comando do coronel Aquino, mas ainda a auxiliar a artilharia com a sua fuzilaria.

Três mil homens ali estavam na tocaia. A margem direita da embocadura, de ponto em ponto, outros contingentes se abarracaram para fim idêntico.

A nossa força naval atingia, no local, a 2.287 combatentes, inclusive oficiais de mar e terra, sendo 1.113 de marinha e 1.174 do exercito, que se achavam a bordo para qualquer operação de desembarque, e 50 bocas de fogo; cumprindo assinalar que oficiais e praças de terra, segundo as comunicações do vários comandantes, muito concorreram para o resultados obtidos.

Formando ligeira curva, alerta se achavam os navios paraguaios: Tacuary, Igurey, Marquez de Olinda, Salto, Paraguary, Iporá, Jujuy e Iberá, na ordem em que os mencionamos. Essa esquadra partira de Humaitá á meia-noite, dando-se logo ao sair um desarranjo na maquina do Iberá, que alterou um tanto o plano de ataque.
    
Abaixo de Corrientes, cerca de duas léguas, ostentava-se a nossa esquadra, composta dos vapores de guerra: Belmonte, Mearim, Beberibe, Ipiranga, Amazonas, Jequitinhonha, Parnaíba, Iguatemi e Araguari, ancorados á margem direita do Paraná, entre as pontas do mesmo nome e de Santa Catarina.


(representação da nave Tacuary, capitânia paraguaia)

Importando executar á risca as ordens do ditador, a abordagem foi tentada logo ao dobrar a ilha Palomera. Aproaram os navios contra a corrente do Paraná, como para executá-la; o renhido canhoneio dos rodízios de popa dos vapores brasileiros, porém, fê-los recuar. Depois deste rechaço, a esquadra paraguaia, avançando, colocou-se em frente ás bocas do Riachuelo.

As 9 horas, distinguem-se nuvens de fumo anunciando a aproximação de navios inimigos. Do tope de vante de um dos nossos vasos de guerra ouvem-se vozes de Navio á proa! Em seguida de Esquadra inimiga á vista.

Imediatamente a Mearim, a cujo bordo se achava Barroso, iça o respectivo sinal. Rufam tambores e trilam os apitos no convés de todos os vapores de nossa divisão. Barroso desfralda sinais, que ordenam: Preparar para combate! E manda despertar os fogos abafados; Largam-se as amarras sobre as bóias; acham-se em bateria as peças e rodízios; os encarregados da munição descem pressurosos aos paióis e voltam trazendo balas e metralhas, que empilham aos lados das baterias. Atiradores guarnecem as gáveas.

A esquadra inimiga apontou, indo na frente Paraguary, seguido de Igurey e depois Iporá, Salto, Pirabebé, Jujuy, Márquez de Olinda e Tacuary. Neste embarcara, em Humaitá, o velho marinheiro Mezza, com a senha de abordar violentamente e, segundo as circunstancias, um ou mais navios, sem medir sacrifícios.

A nossa esquadra põe-se em movimento, iniciando a marcha a canhoneira Belmonte, cuja guarnição se mostra ansiosa. Seguem após Amazonas, para cujo bordo de transferira Barroso, e, na mesma linha, avançam, Beberibe, Mearim, Araguari e os demais.

Já no tope do navio capitania vê-se o sinal de O Brasil espera que cada um cumpra o seu dever e, em seguida, este outro Bater o inimigo que estiver mais próximo.

A nossa esquadra ia, de fato, ao encontro do inimigo. Jequitinhonha, ao passar em frente á embocadura do Riachuelo, encalha, dando se então fortíssimo tiroteio entre as forças do navio e as de Bruguez, ao alto do barranco.

Três navios paraguaios tentam abordá-la; a canhoneira, porém, cuja tripulação a custo consegue safá-la, prossegue, obrigada a uma luta desigual, em que a nossa maruja se vê constantemente a beira das baterias inimigas. Quadro indescritível oferece, então, esse vaso de guerra, com a sua proa, as amurada, as vergas e os mastros, os escaleres, tudo, enfim, reduzido a estilhaços, que concorrem para por fora de combate os nossos soldados e oficiais mais ousados.
    
Morre Lima Barroso e, junto dele, tem a mesma sorte o pratico André Motta; 17 inferiores tombam quase de assentada. Recebem ferimentos o chefe Gomensoro, Freitas, Lacerda e Castro Silva, firmes nos seus postos.

Desce agora o Parnaíba: outra abordagem pelos navios Salto, Paraguary e Tacuary. Tão certeiros são os disparos da Jequitinhonha sobre Paraguary, que este retrocede logo.

Os outros navios atacantes encostaram-se, porém, a bombordo e a estibordo da Jequitinhonha; Garcindo, no passadiço, concita a tripulação á resistência; Firmino Chaves, em brados de entusiasmo, Pedro Afonso Ferreira e Maia, á frente dos seus navais, relutam com denodo.

O Marques de Olinda, vem em socorro dos seus e despeja no convés da Parnaíba centenas de bravios guaranis, armados de sabres, machadinhas e revolveres. Eram os famigerados do Sexto de infantaria, que já se haviam triste e indignamente celebrado nas carniçarias de Mato Grosso.

Dá-se, então, combate, peito a peito, pulso a pulso, que remata em horrível carnificina. Greenhalgh consegue derrubar, a tiro, um oficial paraguaio, que o intima a arriar o pavilhão; mas, logo após, cai morto ás arguçantes cutiladas de sabre a duas mãos; Pedro Affonso e Maia, defendendo-se, caem mutilados; Marcilio Dias, batendo-se contra quatro, mata dois de seus adversários, morrendo em seguida aos golpes de afiadas machadinhas dos outros dois. Após uma hora de nutrida e porfiante contenda, o inimigo consegue Apossar-se do convés desde a popa ao mastro grande. Os oficiais, escudados pelas peças, fuzilam-no, ás incessantes investidas. Mearim e Belmonte, respectivamente sob os comandos de Eliziario Barbosa e Abreu, acodem oportunos.

Os abordantes abandonam os companheiros, que haviam galgado o convés da Parnaíba, e fogem aos primeiros tiros daqueles navios. A bordo da Parnaíba chegara-se a vacilar um instante, quase se perdendo a esperança de repelir o inimigo, que se multiplicava com os ininterruptos esforços; Garcindo, seu brioso comandante, á iminente ameaça daqueles reforços, chega mesmo a combinar com o imediato Felippe Rodrigues Chaves que, em ultimo caso e como medida extrema, lançariam fogo ao paiol, fazendo voar o navio em estilhaços, e, como visse repletas chalanas inimigas se aproximarem, transmitiu aquelas ordens ao oficial, escrivão Correa da Silva, que acendendo o charuto, se dispôs a obedecer no instante; a guarnição, entretanto, reanima-se e, investindo contra os paraguaios, que em vertiginoso delírio se batiam á louca, aos gritos de - mata! degola! , tapetam o convés com seus cadaveres, que rolam por dezenas. O Amazonas, que até então sustentara vivíssimo fogo contra as baterias de Bruguez, percebe, através da espessa fumaça, o que se passa a bordo da Parnaíba, e vem-lhe em socorro, no momento mesmo em que o Márquez de Olinda chegava para reforçar a abordagem: contra este investe o Amazonas, que o afunda a proadas. O Tacuary tenta escapar-se a idêntica manobra do Amazonas; este, porém, persegue-o, e mete-o a pique, igualmente ás bicadas de proa. Ipiranga, sob o comando de Alvaro de Carvalho e que, bem como aquele, respondia ao tiroteio da baterias de Bruguez, vem, por sua vez, em defesa do Parnaíba, e com certeiros disparos arromba logo o costado e as caldeira do Salto, cuja tripulação, em alarido, atira-se na água, á fuzilada dos nossos.

Segue-se agora o Ipiranga no encalço do Paraguary, crivando-o de metralha. A Beberibe, cujo comandante Bonifacio de Sant'Anna se mostrara de inaudita bravura, persegue os navios inimigos. O comandante da Iguatemi, ferido, é levado em braços para o camarote; o imediato Oliveira Pimentel, substituindo-o, é decapitado por uma bala; assume o comando o jovem Gomes dos Santos, que auxilia o tiroteio.
    
O Ipiranga, ao mando de Alvaro de Carvalho, faz submergir uma chata que, a distancia, dirige certeiros tiros aos costados dos navios: a tripulação, estilhaçada, trombulha, descendo na correnteza; no Araguary, Hoonholts bate-se com denodo; contra o navio de se comando voltam-se os que atacavam a Parnaíba, auxiliados agora pelo Tacuary, que recuara aos disparos dos rodízios do Ipiranga.
    
Os flancos dos navios brasileiros, despedaçados pelos canhonaços das chatas a lume d'agua, tornam iminente a submersão total da esquadra. Bombas metralhas esfuziam do alto dos barrancos: não é possível descrever o que se passa a bordo dos navios ao alcance das balas, que sibilam em chuveiros.

Entretanto, alguma coisa de providencial se passava, que cumpre não esquecer: quando o oficial-escrivão da Parnaíba, depois de haver tragado, para atiçá-lo, algumas fumaças do fatídico morrão que deveria comunicar o fogo ao paiol, pensa cumprir a sinistra ordem ouvem-se alvissareiros vivas que, irrompendo dos navios brasileiros em delírio, o detém estupefato. E  de pé, sobre a caixa das rodas, destaca-se afina, por entre densas nuvens de fumo, o vulto imponente de Barroso, que é o primeiro a bradar - Vitória!

E este triunfo naval, que tão diretamente influíra nos destinos de toda a campanha, mudou também, e inteiramente, a sorte dos adversários. Robles não mais prosseguiu na invasão de Entre Rios; Estigarribia, isolado nas margens do Uruguai, depões as armas; Lopez, recolhendo-se a temporária defensiva, volta-se contra os seus: Robles ao regressar é fuzilado por covarde.

As nossas perdas foram de 216 combatentes entre mortos e feridos, assim descriminados por navios:


 
NaviosMortosFeridos
Amazonas1313
Belmonte923
Iguatemi16
Jequitinhonha833
Parnaíba3329
Beberibe519
Araguari25
Ipiranga16
Mearim28
   
Total74142
Total 216

O inimigo teve fora de combate, a bordo, entre mortos, feridos, afogados, comprimidos pelos costados dos navios e prisioneiros, 1.500 praças, aproximadamente; em terra, Bruguez perdeu 1.750, o tudo perfaz 3.250; mais elevada foi, entretanto, a estimativa de inteligentes oficiais prisioneiros. E a esquadra avança, avança sempre, em demanda de novas e estrondosas vitórias".


fonte:

PIRES DE ALMEIDA: Páginas esquecidas, Combate do Riachuelo. Almanaque "Eu sei tudo", junho de 1918. Disponível em Almanaque Virtual - Bene Trovato, ano XI, http://www.almanaque.cnt.br/riachuelo.htm . Acesso em: 02/02/2015.






(Contra-almirante Francisco Manuel Barroso da Silva)

                    
                       
                            Últimas ilações:


 O texto acima foi fielmente transcrito e tendo sido escrito há quase cem anos se ressentiu é claro de algumas imperfeições, decorrentes da carência de dados e do enfoque que então se dava ao sangrento conflito. Hoje, a visão daquilo tudo melhorou muito, novos dados foram tornados públicos e é possível até pela natural objetividade oriunda do decurso do tempo discorrer-se melhor sobre o evento. Também na publicação obtida não constavam estas imagens, que eu inseri nela, para dar maior colorido a tudo.

Mas, certamente a batalha do Riachuelo salvou Buenos Aires e Montevidéu de futuros ataques a elas, consolidou o domínio das águas platinas pela Marinha Imperial, assegurou o total bloqueio marítimo e fluvial do Paraguai e foi um importante laurel aquela, que até hoje é comemorado com fervor na Marinha do Brasil. Tendo ainda antecedido a futura derrota paraguaia em Uruguaiana, que obrigou a espontânea evacuação destes de Corrientes e Entre Rios, libertando a Argentina da injusta opressão lopista. Busquei na postagem mostrar as duas naves insígnias opostas, a Amazonas (no centro da tela de Eduardo de Martino) e o Tacuary, bem como a figura do almirante Barroso, dedicado chefe naval brasileiro e real autor da derrota naval guarani.